Precisamos parar de brigar entre nós e começar a cobrar compromissos

OPINIÃO

  • * Por Abrão Dib

Tenho acompanhado, com preocupação, algumas manifestações recentes dentro do próprio segmento das pessoas com deficiência.

O debate político, que deveria ser uma oportunidade para apresentarmos nossas necessidades e cobrarmos compromissos, em alguns momentos tem ultrapassado os limites do respeito e chegado a agressões entre pessoas que, no fundo, deveriam estar lado a lado na defesa de direitos.

Peço desculpas pela posição que tomo, mas preciso dizer: isso é inadmissível.

A ANAPcD é uma entidade apolítica e apartidária, mas politizada. E muito politizada

Apolítica porque não pertence a partido, candidato ou grupo político.

Politizada porque sabe que as decisões tomadas pelos poderes públicos interferem diretamente na vida das pessoas com deficiência e que, portanto, precisamos participar do debate, acompanhar, questionar e cobrar.

Nossos Associados têm suas convicções. Alguns estão de um lado político, outros estão de outro. E isso faz parte da democracia. O que não pode acontecer é essa diferença de pensamento destruir aquilo que temos em comum.

O momento político deveria ser uma oportunidade

Em vez de gastarmos energia brigando para provar que determinado candidato é melhor do que outro, deveríamos estar perguntando: O que você se compromete publicamente a fazer pelas pessoas com deficiência?

Não estou falando de promessas genéricas. Estou falando de compromissos públicos.

Que cada candidato diga claramente o que pretende fazer. Que assuma compromissos que possam ser registrados, documentados e, principalmente, cobrados depois.

Se alguém entende que determinado candidato trouxe conquistas importantes para o segmento, que mostre.

Mas que mostre fatos. O que foi conquistado? Qual compromisso foi assumido? Onde está a declaração pública?
Qual foi a medida efetivamente adotada?

Precisamos sair do campo do “eu acho que…”, do “talvez ele faça”, do “se ganhar, certamente vai…”.

Porque imaginar intenções pode ser muito perigoso.

O problema é o dia seguinte à eleição

Precisamos pensar no que acontecerá depois do período eleitoral. Os políticos continuarão suas vidas, seus partidos, suas disputas e seus acordos. Os adversários de hoje estarão, muitas vezes, sentados à mesma mesa amanhã.

E nós?

Se deixarmos o segmento rachado, seremos nós que teremos de reconstruir pontes.

Enquanto políticos podem superar suas diferenças e seguir em frente, as pessoas com deficiência continuarão precisando de políticas públicas, acessibilidade, emprego, educação, saúde, transporte, benefícios, respeito e garantia de direitos.

Por isso, não podemos permitir que uma disputa eleitoral destrua a capacidade de organização de um movimento que levou décadas para conquistar espaço.

Não precisamos concordar. Precisamos saber cobrar.

Defender um candidato é um direito. Ter preferência política é um direito. Discordar do outro também é um direito. Agressão não é.

E transformar diferenças políticas em uma guerra dentro do próprio segmento também não ajuda nenhuma pessoa com deficiência.

Hoje, dificilmente alguém coloca na parede do quarto a fotografia do seu time de futebol ou do seu político como se aquela paixão definisse quem ele é para sempre.

A política passa. Os governos passam. Os candidatos passam.

E a luta por direitos vão permanecer. E cada vez em lutas mais difíceis e árduas como tem acontecido nas últimas décadas.

E é justamente por isso que precisamos aproveitar este momento político de uma maneira diferente. Em vez de apenas escolher lados, precisamos extrair compromissos.

Em vez de apenas defender, precisamos registrar. Em vez de apenas acreditar, precisamos documentar.

Em vez de brigar entre nós, precisamos construir uma ferramenta para cobrar depois.

O Diário PcD convidou os dois candidatos que disputam as eleições hoje para estar aqui no Diário PcD. Buscamos, tentamos, cobramos, imploramos. Mas nem atenção nos deram.

2027 precisa encontrar o segmento preparado para cobrar

Quero que, depois das eleições, possamos olhar para trás e ter em mãos uma relação objetiva de compromissos assumidos publicamente.

Quero que possamos dizer: “Você prometeu isso. Onde está?”

E isso vale para qualquer lado político. Não importa quem fez a promessa. Não importa de que partido seja.

Não importa quem recebeu o apoio de determinada pessoa ou entidade.

Se assumiu compromisso com as pessoas com deficiência, deverá ser cobrado.

Essa deveria ser a nossa estratégia. Não gostaria queo segmento saia de uma eleição mais dividido do que entrou.

Quero um segmento que saia mais organizado, mais consciente e com documentos nas mãos.

Porque, em 2027, não teremos que discutir quem estava certo durante a eleição. Teremos que discutir o que foi efetivamente feito.

Essa é a diferença entre torcida e cidadania.

Por isso, faço aqui um apelo: vamos defender nossas convicções, mas sem destruir nossas relações.

Vamos respeitar quem pensa diferente. Vamos parar com as agressões.

Vamos aproveitar o momento político para cobrar compromissos públicos.

E, principalmente, vamos lembrar que nenhum candidato merece mais a nossa união do que a própria causa das pessoas com deficiência.

A política passa. A deficiência continua fazendo parte da vida de milhões de brasileiros.

E os direitos dessas pessoas não podem depender de uma guerra entre nós.

Que possamos transformar este momento político em compromissos concretos — e esses compromissos, em ferramentas de cobrança a partir de 2027.

E essa é, acima de tudo, a minha posição como presidente da ANAPcD e editor do Diário PcD

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