Da escola à vida adulta, a transição traz dúvidas sobre autonomia, trabalho, dinheiro e necessidade de apoio; Instituto Buko Kaesemodel leva essa discussão a congresso internacional em Lisboa
Completar 18 anos costuma vir acompanhado de expectativas: conseguir o primeiro emprego, continuar os estudos, administrar o próprio dinheiro e conquistar mais independência. Para jovens com deficiência intelectual e suas famílias, essa passagem também abre espaço para perguntas sobre como construir a vida adulta com os apoios necessários. Como ampliar a participação nas decisões? Quais experiências podem ajudar a desenvolver autonomia? Como os pais podem oferecer segurança e abrir espaço para novas escolhas?
A maioridade estabelece um marco, mas o desenvolvimento de habilidades e a necessidade de acompanhamento seguem ritmos individuais. Um jovem pode realizar algumas atividades sozinho e precisar de ajuda em outras. Por isso, pensar nessa transição exige observar sua rotina, seus interesses, suas formas de comunicação e as oportunidades que encontra para aprender e participar.
É essa atenção às particularidades de cada pessoa que o Instituto Buko Kaesemodel (IBK) pretende levar ao Congresso Internacional “O Caminhar do Direito de Família, do Direito das Sucessões e do Biodireito”, nos dias 17 e 18 de novembro, em Lisboa. Responsável pelo Programa Eu Digo X, voltado à síndrome do X Frágil, o Instituto atua na pesquisa, na disseminação de informações, no acesso ao diagnóstico e no apoio às famílias.
“Não é possível discutir capacidade jurídica considerando apenas um diagnóstico. É preciso compreender o grau de comprometimento, as habilidades preservadas, o contexto familiar e o suporte disponível para cada pessoa. A avaliação deve ser individualizada, porque as necessidades de proteção e os níveis de autonomia são diferentes”, afirma Luz María Romero, gestora do IBK.
Na passagem para a vida adulta, questões cotidianas ganham novos significados. Fazer uma compra, acompanhar os próprios gastos, organizar compromissos ou escolher uma atividade são situações que ajudam a identificar habilidades já desenvolvidas e pontos em que há necessidade de orientação. A discussão sobre independência passa, assim, por reconhecer quais apoios permitem ao jovem participar mais da própria rotina.
O dinheiro é um dos temas que podem mobilizar as famílias. Compreender preços, conferir o troco, planejar uma compra e reconhecer uma abordagem suspeita envolvem habilidades diferentes. Em vez de uma resposta única sobre estar ou não preparado para administrar recursos, a conversa precisa considerar quais tarefas a pessoa compreende, em quais encontra dificuldades e como pode ser apoiada.
A continuidade dos estudos e a aproximação com o trabalho também fazem parte desse horizonte. Quais são os interesses do jovem? Que atividades deseja conhecer? Que condições favorecem sua aprendizagem e participação? Colocar essas perguntas em discussão ajuda a construir perspectivas para além da rotina escolar e a incluir a própria pessoa nas escolhas sobre os próximos anos.
Para os pais, essa etapa pode exigir uma reorganização do cuidado. Acompanhar um filho adulto envolve rever hábitos, compartilhar responsabilidades e reconhecer preferências que podem ser diferentes das suas. Também traz dúvidas sobre como conciliar a preocupação com situações de vulnerabilidade e o espaço necessário para novas experiências.
Sabrina Mugiatti, idealizadora do Programa Eu Digo X e mãe de um jovem de 22 anos com síndrome do X Frágil, levará ao congresso sua perspectiva sobre os desafios de garantir proteção e respeitar as capacidades e a individualidade de cada pessoa. “Estar em Lisboa é uma oportunidade de mostrar que as discussões jurídicas sobre capacidade, curatela e tomada de decisão precisam considerar a vida real das famílias. O Instituto nasceu dessa vivência e hoje pode compartilhar, em um espaço internacional, aprendizados que foram construídos ao longo de muitos anos”, afirma.
As dúvidas sobre documentos, administração de recursos e instrumentos de proteção também precisam de orientação jurídica individualizada. No encontro, esses assuntos serão discutidos ao lado dos aspectos psicológicos e das diferentes necessidades de apoio. Sabrina será mediadora de um bloco de palestras, enquanto Luz María apresentará o tema “Deficiência intelectual: aspectos psicológicos, avaliação do grau de comprometimento e implicações para autonomia e proteção — o caso da síndrome do X Frágil”.
Organizado pela Associação de Direito de Família e das Sucessões (ADFAS) e pelo Instituto de Direito Brasileiro (IDB) da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, o congresso será uma oportunidade para o IBK aproximar a experiência das famílias brasileiras das discussões internacionais.
Para quem atravessa essa fase, preparar a vida adulta envolve construir possibilidades concretas: continuar aprendendo, desenvolver relações, explorar interesses e contar com pessoas de confiança. Aos 18 anos, essas possibilidades precisam encontrar espaço em uma conversa que inclua o jovem, reconheça seus desejos e considere os apoios de que ele necessita para seguir adiante.
CRÉDITO/IMAGEM: Sabrina Muggiati e o filho Jorge Adib Abagge Neto
Valterci Santos








