Apenas 23% dos municípios brasileiros têm mamógrafos do SUS, enquanto mulheres com deficiência enfrentam barreiras adicionais

Apenas 23% dos municípios brasileiros têm mamógrafos do SUS, enquanto mulheres com deficiência enfrentam barreiras adicionais

País tem mais de 5,5 mil municípios, mas equipamentos estão presentes em apenas 1.306 cidades, segundo levantamento da CNM – Confederação Nacional dos Municípios

Em pleno Outubro Rosa, campanha global que visa informar sobre o câncer de mama e a importância do diagnóstico precoce e do autocuidado, o acesso à mamografia pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ainda é um desafio no Brasil.

Embora o país tenha 5.569 municípios, apenas 1.306 contavam com mamógrafos utilizados pelo sistema público, o equivalente a cerca de 23% das cidades brasileiras, segundo levantamento divulgado pela Confederação Nacional de Municípios (CNM) em outubro de 2024.

Os dados revelam uma desigualdade na distribuição dos equipamentos utilizados para a detecção precoce do câncer de mama e levantam uma questão ainda mais preocupante: como garantir o acesso ao exame para todas as mulheres, especialmente aquelas que vivem com deficiência e enfrentam obstáculos adicionais nos serviços de saúde?

De acordo com a CNM, o Brasil possuía 6.420 mamógrafos em todo o território nacional, dos quais 3.197 estavam em uso no SUS. A existência de equipamentos, entretanto, não significa necessariamente que todas as mulheres consigam realizar o exame no momento adequado. A distância até os serviços, a capacidade de atendimento e a disponibilidade de profissionais também influenciam o acesso.

O levantamento também apontou que apenas 206 municípios ofereciam atendimento público especializado com médicos mastologistas. Na época, eram 344 especialistas vinculados ao SUS nessas localidades.

Mulheres com deficiência enfrentam desafios adicionais

A dimensão do problema ganha ainda mais relevância diante dos dados populacionais. O Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), identificou 8,3 milhões de mulheres com deficiência no Brasil, conforme resultados divulgados em 2025.

Para parte dessas mulheres, conseguir uma mamografia pode envolver dificuldades que vão além da oferta do exame. A ausência de equipamentos adaptados, as barreiras arquitetônicas, a dificuldade de posicionamento durante o procedimento e a falta de capacitação das equipes podem comprometer o atendimento.

“O problema não é apenas a quantidade de equipamentos existentes no país. É preciso saber quantos estão disponíveis no SUS, onde estão localizados, quais oferecem condições efetivas de acessibilidade e se as equipes estão preparadas para atender mulheres com diferentes tipos de deficiência”, afirma Rosana Lago, presidenta da Frente Nacional das Mulheres com Deficiência.

Mulheres que utilizam cadeira de rodas, por exemplo, podem precisar de equipamentos que permitam o posicionamento adequado para a realização do exame. Quando a estrutura não oferece condições para esse atendimento, o acesso à prevenção pode se tornar mais difícil.

Também existem barreiras de comunicação e acolhimento que precisam ser consideradas no atendimento a mulheres com diferentes tipos de deficiência. A acessibilidade deve fazer parte do planejamento dos serviços de saúde, e não depender de soluções improvisadas a cada atendimento.

Distribuição dos equipamentos exige atenção

O fato de os mamógrafos do SUS estarem presentes em apenas 1.306 municípios não significa, necessariamente, que as mulheres das demais cidades não possam realizar o exame. Em muitos casos, o atendimento depende do encaminhamento para outros municípios ou de estratégias regionais de oferta dos serviços.

Ainda assim, a concentração territorial dos equipamentos evidencia a importância de avaliar se a rede de saúde consegue atender à demanda, reduzir o tempo de espera e garantir transporte e condições adequadas para as pacientes.

No caso das mulheres com deficiência, essa avaliação precisa incluir informações específicas sobre acessibilidade. Os números divulgados pela CNM não detalham quantos dos equipamentos disponíveis estão preparados para atender adequadamente esse público, o que impede dimensionar nacionalmente a extensão dessa barreira.

A ausência de dados nacionais específicos sobre acessibilidade também dificulta o planejamento de políticas públicas direcionadas às necessidades dessas mulheres.

Outubro Rosa precisa ir além da conscientização

Durante o Outubro Rosa, campanhas em todo o país reforçam a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama. Para que essa mobilização alcance todas as mulheres, porém, é necessário garantir condições concretas de acesso aos exames.

A ampliação da oferta de mamografias, a distribuição mais equilibrada dos equipamentos, a manutenção dos aparelhos, a capacitação dos profissionais e a adaptação das unidades de saúde estão entre as medidas importantes para melhorar o atendimento.

Também é necessário fortalecer a articulação entre União, estados e municípios para que as mulheres que vivem longe dos centros de referência não sejam prejudicadas pela distância ou pela falta de estrutura local.

Para a presidenta da FNMD, “para as mulheres com deficiência, assegurar acessibilidade significa respeitar o direito à saúde, à autonomia e à dignidade. Não basta que o exame esteja disponível em algum ponto da rede: é preciso que a paciente consiga chegar ao serviço e realizá-lo em condições adequadas”.

Em um país com mais de 5,5 mil municípios e milhões de mulheres com deficiência, os números reforçam a necessidade de ampliar o debate sobre a distribuição dos serviços de diagnóstico e a acessibilidade na saúde.

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