Recomendações de preparação para emergências ganham força na Europa em meio a riscos climáticos, falhas de infraestrutura e ataques cibernéticos. Para pessoas que dependem de energia elétrica para manter equipamentos de suporte à vida, uma interrupção pode representar risco imediato.
Governos de diferentes países estão reforçando orientações para que a população mantenha em casa alimentos, água, medicamentos e outros itens básicos para enfrentar possíveis situações de emergência.
No Reino Unido, a campanha oficial “Be Ready” recomenda que cada família tenha condições de permanecer por pelo menos 72 horas com alimentos não perecíveis, água potável e itens essenciais. A orientação inclui três litros de água por pessoa por dia, medicamentos, lanternas, pilhas, rádio, carregadores portáteis e dinheiro em espécie.
A mesma preparação para três dias é adotada em orientações da França, Irlanda e Holanda. A União Europeia também estabeleceu, em sua Estratégia de Preparação, a meta de desenvolver orientações para que a população consiga manter um mínimo de 72 horas de autonomia em situações de crise.
Na Noruega, a recomendação oficial é mais ampla: manter suprimentos para uma semana. A Finlândia também possui uma orientação nacional de preparação para 72 horas.
As recomendações não significam que exista uma previsão de desabastecimento ou uma ameaça mundial imediata. São medidas preventivas diante de riscos como tempestades, interrupções de energia, falhas de abastecimento, crises sanitárias e ataques cibernéticos.
Ataques a supermercados aumentam a preocupação
A discussão ganhou novo elemento após uma onda de incidentes cibernéticos atingir sistemas de refrigeração de supermercados europeus.
Nesta segunda-feira, 2, redes varejistas de países como Bélgica, Estônia, Finlândia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Holanda, Portugal e Suécia registraram problemas em geladeiras e freezers.
Os ataques teriam alterado remotamente as configurações de temperatura dos equipamentos, provocando o aquecimento de sistemas de refrigeração e obrigando estabelecimentos a descartar alimentos.
https://forbes.com.br/noticias-sobre/ataque-hacker
Os episódios ocorreram semanas depois de um incidente semelhante na França, que também provocou perdas de produtos em supermercados.
Até o momento, não há confirmação de autoria dos ataques nem de que todos os episódios tenham sido coordenados pelo mesmo grupo. Mas os acontecimentos demonstram como sistemas tecnológicos conectados podem afetar atividades essenciais, inclusive a cadeia de abastecimento alimentar.

E as pessoas com deficiência? Quem garantirá sua sobrevivência?
É aqui que o alerta precisa ganhar uma dimensão inclusiva.
As recomendações gerais de armazenamento de alimentos e água não respondem a uma pergunta fundamental: como sobreviverá uma pessoa que depende de energia elétrica para manter um equipamento essencial ao funcionamento do próprio organismo?
Milhares de pessoas utilizam equipamentos que precisam de energia para funcionar, como concentradores de oxigênio, ventiladores pulmonares, respiradores, aspiradores de secreções, bombas de infusão e outros dispositivos de suporte à vida.
Em uma interrupção prolongada de energia, a falta de alimentação elétrica pode representar risco à saúde e à própria sobrevivência.
Também precisam ser consideradas pessoas que utilizam cadeiras de rodas motorizadas, elevadores residenciais, equipamentos de comunicação assistiva, tecnologias de apoio e medicamentos que exigem refrigeração.
Idosos que vivem sozinhos, pessoas com mobilidade reduzida e famílias que dependem de cuidadores também podem enfrentar dificuldades adicionais em situações de emergência.
Uma simples recomendação para armazenar alimentos não resolve o problema de quem precisa de eletricidade para continuar vivo.
Quem ficará responsável pelas pessoas que utilizam diariamente?
Ventiladores pulmonares e respiradores – Mantêm ou auxiliam a respiração de pessoas com insuficiência respiratória, doenças neuromusculares, lesões medulares e outras condições graves.
Concentradores de oxigênio – Fornecem oxigênio continuamente a pessoas que dependem de oxigenoterapia. Sem energia, o aparelho pode parar de funcionar.
Aspiradores de secreções – Utilizados para retirar secreções das vias respiratórias, especialmente por pessoas com traqueostomia ou dificuldades para eliminar secreções.
Equipamentos de diálise domiciliar – Algumas modalidades de diálise peritoneal utilizam máquinas elétricas, como as cicladoras noturnas.
Bombas de infusão – Administram medicamentos, nutrientes e soluções de maneira controlada. Para determinados pacientes, a interrupção pode representar risco importante.
O Brasil tem regras para pessoas dependentes de equipamentos elétricos
No Brasil, a Resolução Normativa nº 1.000/2021 da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) determina que as distribuidoras cadastrem imediatamente, mediante comprovação médica, consumidores que utilizam equipamentos de autonomia limitada, vitais à preservação da vida e dependentes de energia elétrica.
A norma também prevê comunicação individualizada, com antecedência mínima de cinco dias úteis, sobre interrupções programadas de energia para unidades consumidoras previamente cadastradas nessa condição.
O cadastro é importante, mas não resolve sozinho o problema de uma interrupção inesperada ou prolongada. É necessário discutir planos de contingência, fontes alternativas de energia, atendimento prioritário e estruturas de apoio para quem depende desses equipamentos.
Um alerta que precisa incluir todos
As experiências internacionais mostram que a preparação para emergências deve considerar as necessidades específicas de cada família.
Para pessoas com deficiência, é necessário avançar em pelo menos cinco frentes:
• Garantia de energia alternativa para equipamentos indispensáveis à vida, com planejamento individualizado.
• Cadastro atualizado de pessoas eletrodependentes e mecanismos de resposta rápida das concessionárias.
• Abrigos e locais de acolhimento acessíveis, com energia de reserva, medicamentos e equipamentos adequados.
• Sistemas de alerta e comunicação acessíveis a pessoas cegas, surdas, com deficiência intelectual ou outras necessidades específicas.
• Planos de evacuação, transporte acessível e redes de apoio para pessoas com mobilidade reduzida e idosos.
Também é fundamental que as orientações sejam construídas com a participação das próprias pessoas com deficiência e de suas organizações representativas.
Uma emergência não pode transformar a deficiência ou a dependência de um equipamento médico em uma sentença de vulnerabilidade.
O mundo começa a discutir como garantir água, comida, medicamentos e energia durante períodos de interrupção dos serviços essenciais. O Brasil precisa aproveitar esse debate para responder a uma questão que não pode ser ignorada:
Se faltar energia, água, comunicação ou abastecimento, quem vai garantir que as pessoas com deficiência continuem vivas e protegidas?
Preparação para emergências precisa ser coletiva, acessível e inclusiva. Não basta orientar a população a armazenar alimentos. É preciso garantir que ninguém seja deixado para trás.
Há um dado brasileiro que merece bastante visibilidade: a ANEEL já possui uma regra específica para consumidores que dependem de equipamentos elétricos vitais.
A Resolução nº 1.000/2021 determina o cadastramento imediato dessas pessoas mediante comprovação médica e estabelece aviso individual com cinco dias úteis de antecedência para desligamentos programados. Isso não garante fornecimento ininterrupto nem resolve uma pane inesperada, mas oferece um instrumento de proteção que precisa ser mais conhecido.
ANEEL
Outro ponto importante é que recomendações internacionais já incluem necessidades específicas de pessoas com deficiência. O governo canadense orienta a criação de redes de apoio, fontes alternativas de energia, abrigos acessíveis, recursos de comunicação e identificação tátil de materiais para pessoas com deficiência visual





