Médico responsável técnico pelos cuidados paliativos do Huap-UFF explica como a abordagem respeita a autonomia do paciente e da família, e por que é importante começar antes da fase final das doenças
O caso do influenciador e especialista em aviação Lito Sousa, 59 anos, que faleceu poucas semanas após ser diagnosticado com uma doença fatal de rápida progressão – a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) – também chamou atenção para a importância do respeito às decisões do paciente na iminência do fim da vida, no âmbito dos chamados cuidados paliativos.
“É importante termos um caso midiático para trazer isso à discussão, para as pessoas saberem que têm direito a decisões sobre o corpo delas e o final de vida delas, sobre como as coisas vão seguir e decidir antecipadamente”, observa o médico paliativista George Patrick Boggiss, responsável técnico pelo Serviço de Cuidados Paliativos no Hospital Universitário Antônio Pedro, da Universidade Federal Fluminense (Huap-UFF), gerido pela HU Brasil.
Os cuidados paliativos, explica o médico, podem ser compreendidos como uma abordagem multidisciplinar que tem por objetivo o controle de sintomas e da dor em pacientes com doenças ameaçadoras da vida. No Huap-UFF, o trabalho é realizado principalmente junto à Oncologia e busca oferecer, além do conforto físico, apoio psíquico, social e espiritual ao paciente e aos familiares.
“Quando a gente fala em cuidado paliativo, tem que sempre pensar no núcleo daquele doente. O paciente é o centro, óbvio, mas é preciso estender esse cuidado ao redor dele”, afirma Boggiss. Segundo o médico, a escuta dos valores e desejos do paciente orienta a condução do tratamento e permite que suas decisões sejam compreendidas e respeitadas pela família, sempre dentro dos limites legais.
Quanto antes, melhor
Ao contrário da ideia de que os cuidados paliativos devem começar apenas quando a morte se aproxima, o especialista ressalta que a abordagem pode ser iniciada muito antes, inclusive no começo ou no meio da doença. É nesse momento que podem ser estabelecidas diretivas, identificados valores e desejos do paciente, antecipadas complicações e definidos cuidados para o controle de sintomas.
“O cuidado paliativo pode ter uma atuação muito antes disso: no começo ou meio da doença, quando a gente vai estabelecer as diretivas desse paciente, o que ele quer, o que ele não quer, o que é de valor para ele e poder respeitar isso ao longo do tratamento”, afirma.
Para Boggiss, antecipar essas conversas também ajuda a alinhar as possibilidades oferecidas pela medicina às prioridades de cada paciente e a preparar familiares e equipe de saúde para decisões que poderão surgir com a evolução da doença.
No Huap-UFF
Na prática, a equipe atua a partir da escuta dos valores, desejos e limites de cada paciente. As manifestações de vontade orientam a condução do tratamento, inclusive na discussão antecipada sobre procedimentos e intervenções que o paciente deseja ou não receber.
“A gente sabe que fazer quimioterapia é um sofrimento, fazer radioterapia é um sofrimento, tomar remédio, seja injetável ou oral, os efeitos colaterais, tudo isso causa um sofrimento. Mas esse sofrimento tem um objetivo”, destaca o médico. O ponto central, segundo ele, é avaliar os benefícios dentro da perspectiva do paciente. “Muitas vezes, o que o paciente quer não é viver mais, mas viver com mais qualidade.
Sala de escuta
Uma iniciativa prática do Huap-UFF é a sala reservada ao atendimento dos cuidados paliativos, criada para proporcionar um ambiente mais acolhedor e adequado a conversas delicadas. O espaço permite a presença de familiares e oferece ao paciente privacidade para expressar sentimentos e vontades.
“É muito importante ter um espaço confortável para termos conversas muito difíceis”, destaca Boggiss. Segundo ele, o ambiente permite que o paciente se sinta à vontade para chorar, manifestar raiva ou simplesmente falar, sem ser interrompido constantemente.
Sobre a HU Brasil
O Huap-UFF integra a HU Brasil desde abril de 2016. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.




