OPINIÃO
- * Por Igor Lima
A pergunta que não é leve
“E o segundo filho, vem quando?”
A pergunta chega sorrindo. Mas não encontra leveza.
Encontra uma memória que não desliga. Um consultório, um silêncio estranho, um médico escolhendo palavras com cuidado demais. E, naquele instante, uma vida inteira mudando de direção sem pedir licença.
A cena que ninguém vê
De madrugada, o mundo dorme.
Mas ali dentro, não.
A luz está acesa. O corpo está exausto. A mente, alerta.
A criança não dorme. A mãe também não.
O relógio marca 2h17. Depois 3h42. Depois 5h08.
No dia seguinte, ela vai funcionar. Não porque pode, mas porque precisa.
Ninguém aplaude essa parte.
Quando o medo deixa de ser ideia
Para mães de crianças com Transtorno do Espectro Autista, o medo não é abstrato.
Ele tem cheiro, tem som, tem lembrança.
É reconhecer sinais antes mesmo de querer enxergá-los.
É saber o caminho — e, justamente por isso, temê-lo.
E então surge a pergunta que não cabe em conversa nenhuma:
Se acontecer de novo, eu consigo continuar sendo quem eu sou?
A verdade que ninguém quer ouvir inteira
Amor sustenta muito. Mas não sustenta tudo.
Não substitui política pública.
Não encurta fila.
Não garante atendimento.
E, principalmente, não impede o esgotamento.
Existe um ponto em que insistir deixa de ser força e passa a ser sobrevivência.
O momento em que algo quebra
O desejo de ter outro filho aparece, às vezes.
Chega quieto, quase tímido.
Mas o medo não sussurra. Ele interrompe.
Ele lembra de tudo, em detalhes.
E, quase sempre, fala mais alto.
Não porque o amor diminuiu.
Mas porque a realidade ensinou demais.
O que o mundo não pergunta
Perguntam sobre o próximo filho.
Não perguntam sobre a última noite sem dormir.
Comentam sobre maternidade.
Não suportam ouvir sobre exaustão.
Esperam respostas simples para dilemas que nunca foram simples.
De onde esse medo realmente vem
Esse medo não nasce dentro dessas mulheres.
Ele é produzido fora.
Na ausência de suporte.
Na falha das políticas públicas.
Na solidão institucionalizada de quem deveria ser acolhida.
Quando tudo falta, o medo não é exagero. É lucidez.
O que fica em silêncio
Planos são revistos sem anúncio.
Sonhos são recalculados em silêncio.
Decisões são tomadas sem plateia — e, muitas vezes, sem acolhimento.
Nem toda escolha é liberdade. Algumas são limite.
A pergunta que precisa mudar
Talvez nunca tenha sido sobre querer ou não outro filho.
Talvez a pergunta real seja outra:
por que tantas mães precisam ter medo para decidir?
O direito que ainda não existe por completo
Escolher deveria ser leve.
Mas, para muitas, escolher virou calcular risco emocional, físico e financeiro.
Isso não é autonomia. É adaptação.
A frase que fica
Algumas mães não têm outro filho porque sabem exatamente o que custa continuar.
O que não pode ser suavizado
Há mulheres que desistem de ampliar a família para não desaparecer dentro dela.
E isso não é escolha plena. É o limite falando mais alto que o desejo.
Enquanto o medo for mais determinante que o desejo, não existe liberdade real. Existe contenção.
E, no silêncio dessa contenção, muitas mães atípicas seguem tomando a decisão mais difícil de todas:
abrir mão de um sonho para continuar existindo.
Porque, às vezes, ter outro filho não é a maior coragem.
A maior coragem é reconhecer que você já deu tudo — e que não pode se perder de si mesma para dar mais.

- * Igor Lima é advogado (OAB/RJ), especialista em Direitos Humanos e sustentabilidade, e pessoa com deficiência. Coordenador da coletânea jurídica “Deficiência e os Desafios para uma Sociedade Inclusiva”, citada no STJ, TST, STF e presente em instituições como Harvard e Universidade de Coimbra. Autor de artigos publicados em espaços como ABDConst, Future Law e revistas jurídicas nacionais, atua como palestrante em instituições como UERJ, UFRJ, UFF, OAB/RJ e MPRJ. Dedica-se à pesquisa e defesa dos direitos das pessoas com deficiência, com experiência em inclusão, políticas públicas e ESG.
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