Pesquisa do DataSenado revela que 69% das vítimas com deficiência conviviam com as agressões havia mais de um ano; dificuldades para reconhecer a violência e barreiras nos serviços de atendimento ampliam os desafios para romper o ciclo de abusos
O quadro Lá Vem Elas – parceria do Diário PcD com a FNMD – Frente Nacional das Mulheres com Deficiência aborda novas perspectivas da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher – do DataSenado.
Abrão Dib e Rosana Lago entrevistam Talita Santos de Oliveira, integrante do Observatório da Mulher contra a Violência (OMV) do Senado Federal.
A violência doméstica contra mulheres com deficiência não se resume ao momento da agressão. Ela pode se prolongar por anos, comprometer a rotina, afastar as vítimas do convívio social e profissional e se misturar a relações de dependência que dificultam a busca por proteção. É o que revela o recorte inédito da 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, elaborado pelo Instituto de Pesquisa DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência.
Um dos dados que mais chamam a atenção é a duração dos episódios: 69% das mulheres com deficiência que relataram violência doméstica ou familiar disseram que as agressões aconteciam havia mais de um ano. Entre as mulheres sem deficiência, o percentual foi de 54%.
O levantamento também mostra que a violência pode afetar diferentes dimensões da vida. Entre as mulheres com deficiência que relataram agressões, 76% afirmaram que a situação prejudicou sua rotina diária; 72% apontaram impactos no convívio com outras pessoas; 50% relataram consequências na vida profissional ou no trabalho remunerado; e 45%, nos estudos.
Os resultados ajudam a dimensionar um problema que envolve não apenas a segurança física, mas também a autonomia, a participação social e o exercício de direitos.
Violência pode ser vivida sem ser reconhecida
A pesquisa identifica uma distância expressiva entre passar por situações compatíveis com violência e reconhecer essas experiências como agressões.
Nos 12 meses anteriores à pesquisa, 34% das mulheres com deficiência vivenciaram situações compatíveis com violência doméstica, familiar ou digital, mas apenas 7% as reconheceram explicitamente como violência.
Entre as mulheres sem deficiência, 28% passaram por situações semelhantes, enquanto 3% as identificaram como violência.
O relatório aponta que humilhações, insultos, intimidações, discriminação, controle e negligência podem ser naturalizados ao longo da vida. Em determinadas relações, práticas de dominação podem ser apresentadas como cuidado, especialmente quando a mulher depende de outra pessoa para realizar atividades cotidianas, administrar recursos ou acessar serviços.
Essa dinâmica pode dificultar a identificação do abuso e tornar mais complexo o caminho até a denúncia.
Entre as situações relatadas nos 12 meses anteriores à pesquisa, 23% das mulheres com deficiência disseram ter sido insultadas, o mesmo percentual relatou humilhação diante de outras pessoas, 22% mencionaram comportamentos intimidatórios — como gritos ou quebra de objetos — e 19% relataram falsas acusações.
Quando a pessoa responsável pelo cuidado também pode ser o agressor
A necessidade de apoio para atividades diárias pode acrescentar obstáculos específicos à saída de uma situação de violência.
Em alguns casos, a pessoa que agride também é responsável por auxiliar na mobilidade, higiene, alimentação, administração de medicamentos, comunicação ou deslocamento da mulher. Romper a relação abusiva pode significar, ao mesmo tempo, perder o suporte necessário para atividades essenciais.
O relatório do DataSenado destaca que o ambiente doméstico pode concentrar relações de controle que se confundem com práticas de cuidado. A dependência de terceiros, as barreiras de comunicação e a falta de alternativas de apoio podem dificultar tanto a denúncia quanto o afastamento do agressor.
O dado ganha relevância diante do perfil econômico identificado pelo levantamento: 48% das mulheres com deficiência disseram não conseguir se sustentar com o próprio dinheiro. Entre as mulheres sem deficiência, o percentual foi de 31%.
A pesquisa não estabelece que a dependência seja a causa isolada da violência, mas aponta que as desigualdades econômicas e sociais podem ampliar as dificuldades para buscar proteção e reconstruir a vida após uma agressão.
Falta de renda e oportunidades pode aumentar os obstáculos
A pesquisa também evidencia diferenças importantes no acesso à educação e ao trabalho.
Entre as mulheres com deficiência entrevistadas, 10% declararam não ser alfabetizadas, contra 4% das mulheres sem deficiência. O ensino fundamental incompleto foi informado por 34% das mulheres com deficiência, diante de 19% entre as demais entrevistadas.
A desigualdade também aparece na atividade remunerada: 78% das mulheres com deficiência disseram não realizar trabalho remunerado, ante 50% das mulheres sem deficiência.
Além disso, 80% das mulheres com deficiência viviam em famílias com renda de até dois salários mínimos. Entre as mulheres sem deficiência, a proporção era de 62%.
Os dados não significam que todas essas mulheres estejam em situação de violência. O relatório, porém, aponta que a combinação de barreiras educacionais, dificuldades de inserção profissional e menor autonomia financeira contribui para condições de vulnerabilidade que precisam ser consideradas nas políticas de prevenção e enfrentamento à violência.
A rede de proteção ainda precisa ser acessível
A dificuldade não termina quando a vítima decide procurar ajuda. O acesso aos serviços pode ser prejudicado por barreiras arquitetônicas, comunicacionais, digitais e atitudinais.
O relatório chama a atenção para a necessidade de atendimento que vá além da acessibilidade física. É preciso garantir que a mulher consiga compreender as informações, comunicar o que aconteceu, registrar a ocorrência e receber atendimento sem infantilização, descrédito ou constrangimento.
Entre os problemas apontados estão a falta de intérpretes de Libras, a insuficiência de recursos de comunicação acessível e a ausência de equipes preparadas para atender mulheres com diferentes tipos de deficiência.
Essas barreiras podem limitar a autonomia da vítima justamente no momento em que ela precisa de uma resposta rápida e segura do poder público.
Ligue 180 foi utilizado por 16% das vítimas com deficiência
Entre as mulheres com deficiência que sofreram violência nos 12 meses anteriores à pesquisa, 60% disseram ter procurado ajuda em igrejas. Amigos e familiares foram citados por 46% das entrevistadas, enquanto 44% buscaram algum tipo de apoio psicológico e 38% procuraram assistência de saúde.
Nos canais oficiais, 40% relataram ter denunciado a violência em uma delegacia comum e 31% em uma Delegacia da Mulher. O telefone 190, da Polícia Militar, foi utilizado por 26%. Já a Central de Atendimento à Mulher, pelo número 180, foi citada por 16%.
O relatório chama a atenção para a menor utilização do Ligue 180 e aponta a importância de ampliar a divulgação dos recursos acessíveis e adequar os canais de atendimento às diferentes necessidades de comunicação.
A acessibilidade dos serviços, portanto, não é apenas uma questão de infraestrutura: ela pode influenciar a possibilidade de a vítima pedir socorro e receber proteção.
Medo e descrença na punição também dificultam a denúncia
Entre as mulheres com deficiência que sofreram violência nos 12 meses anteriores à pesquisa e não denunciaram pelos canais considerados no levantamento, os motivos mais citados foram o medo da pessoa que praticou a agressão (17%) e a crença de que não haveria punição (16%).
A preocupação com os filhos e a expectativa de que aquela seria a última agressão apareceram, cada uma, com 12%. A dependência financeira da pessoa que praticou a violência foi mencionada por 9%, e a vergonha da agressão, por 7%.
Os números mostram que a decisão de denunciar não depende apenas de conhecer os direitos ou os serviços disponíveis. A segurança da vítima, a confiança na resposta das instituições e a existência de alternativas de apoio também fazem parte desse processo.
Entre as mulheres que sofreram violência nos últimos 12 meses, 44% disseram ter solicitado medida protetiva. O relatório informa ainda que, em 19% dos casos em que houve medida protetiva, o agressor descumpriu a ordem judicial.
Violência psicológica, moral, física, patrimonial e sexual
No conjunto das mulheres com deficiência que relataram violência doméstica ou familiar praticada por um homem ao longo da vida, os tipos mais citados foram:
- 88% relataram violência psicológica;
- 82%, violência moral;
- 80%, violência física;
- 46%, violência patrimonial;
- 39%, violência sexual.
Entre as mulheres sem deficiência, os percentuais de violência patrimonial e sexual foram menores: 39% e 28%, respectivamente.
A violência patrimonial também aparece em situações específicas ocorridas nos 12 meses anteriores à pesquisa. Entre as mulheres com deficiência, 9% relataram que alguém tomou ou destruiu objetos ou documentos para prejudicá-las, contra 5% das mulheres sem deficiência. Transações financeiras realizadas com o objetivo de causar prejuízo foram mencionadas por 8% das mulheres com deficiência e 3% das demais entrevistadas.
O relatório aponta que a deficiência pode ser utilizada como justificativa para controlar dinheiro, bens, documentos e decisões sobre o próprio patrimônio. Por isso, o enfrentamento da violência exige atenção também às formas de abuso que não deixam marcas físicas.
Um recorte inédito, com limites que precisam ser considerados
O levantamento estima que cerca de 11,7 milhões de mulheres com deficiência vivem no Brasil. Desse grupo, 38% relataram ter sofrido violência doméstica ou familiar praticada por um homem em algum momento da vida — uma estimativa de 4,4 milhões de mulheres. Entre as mulheres sem deficiência, o percentual foi de 25%.
A pesquisa ouviu 21.641 mulheres residentes no país, por telefone, entre 16 de maio e 8 de julho de 2025. Pela primeira vez, a investigação incorporou a autoidentificação das participantes com deficiência, permitindo analisar esse segmento de forma específica em uma pesquisa probabilística nacional.
O próprio relatório ressalta, contudo, que o método telefônico pode ter dificultado a participação de algumas mulheres surdas que utilizam Libras como principal meio de comunicação, mulheres com deficiência de fala e pessoas com determinadas deficiências intelectuais, neurológicas ou psicossociais. A falta de privacidade durante a entrevista também pode limitar as respostas de mulheres que vivem com a pessoa que exerce controle ou violência.
Essas ressalvas não anulam os resultados. Elas indicam que a produção de dados precisa avançar para alcançar mulheres cujas experiências podem permanecer sub-representadas.
“Nada sobre nós sem nós”
Antes da divulgação dos resultados, o Observatório da Mulher contra a Violência promoveu uma escuta com mulheres com deficiência e representantes de coletivos, movimentos, redes e organizações de diferentes regiões do país. A proposta foi reunir contribuições para interpretar os achados a partir das experiências de quem vive essa realidade.
Uma expressão apareceu repetidamente nesse processo: “Nada sobre nós sem nós”.
O relatório destaca que a participação das próprias mulheres contribui para compreender melhor os dados e identificar aspectos que precisam ser considerados na formulação de políticas públicas. Entre as questões levantadas está a necessidade de aprimorar a identificação da deficiência nos registros administrativos, inclusive em boletins de ocorrência e outros documentos utilizados pelos serviços de atendimento.
Sem informações adequadas, parte da violência contra mulheres com deficiência pode continuar invisível nas estatísticas e, consequentemente, no planejamento das ações públicas.
Os resultados do DataSenado apontam, assim, para desafios que vão além da prevenção da agressão: reconhecer a violência, assegurar canais acessíveis de denúncia, garantir proteção efetiva e ampliar as condições para que mulheres com deficiência possam viver com autonomia e segurança.
Fonte: Instituto de Pesquisa DataSenado e Observatório da Mulher contra a Violência — Violência doméstica e familiar contra mulheres com deficiência, setembro de 2026.





