Dia do Orgulho Autista destaca protagonismo e autonomia na vida adulta

Dia do Orgulho Autista destaca protagonismo e autonomia na vida adulta

Histórias de estudo, trabalho e autonomia mostram como diferentes trajetórias podem ser construídas quando há suporte e oportunidades

Pela primeira vez, o Brasil celebra oficialmente, em 18 de junho, o Dia do Orgulho Autista. Mais do que uma data de conscientização, a proposta é colocar as próprias pessoas autistas no centro da conversa, valorizando suas trajetórias, conquistas e diferentes formas de existir. A data também convida a sociedade a ampliar o olhar sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), especialmente na vida adulta, período ainda marcado por desafios relacionados à inclusão, ao trabalho e à independência.

Nos últimos anos, a psicóloga e analista do comportamento Marina Bevilacqua Alves de Lima, do Grupo Gaiadi (Grupo de Avaliação e Intervenção dos Atrasos do Desenvolvimento Infantil), tem acompanhado de perto o crescimento da procura por avaliações na adolescência e na vida adulta. “Esse movimento não é uma moda. Ele reflete décadas de subdiagnóstico e a evolução dos próprios critérios de avaliação”, explica.

Segundo ela, por muito tempo o autismo esteve associado apenas aos quadros mais graves e a pessoas com comprometimento importante da fala. “Indivíduos com inteligência na média ou acima dela e com linguagem funcional passavam fora do radar. Além disso, existe a camuflagem social, um esforço contínuo para imitar comportamentos neurotípicos, que tem um custo emocional muito alto”, afirma.

Muito além do diagnóstico

Para João Pedro Médico, de 23 anos, o autismo nunca foi motivo para abandonar seus sonhos. Diagnosticado ainda na adolescência, ele construiu uma trajetória profissional que começou com cursos de formação e hoje atua como assistente administrativo no  setor jurídico de uma universidade. Recentemente, decidiu dar mais um passo: prestar vestibular para Direito. “O que eu penso é que, se você tem autismo ou qualquer outra deficiência, precisa se descobrir. Você não pode ficar impondo limites na sua vida. Mesmo que existam dificuldades, enfrente e foque no seu desejo”, aconselha.

Ele resume a própria filosofia em uma frase que costuma repetir para si mesmo. “Quando você tem sonhos que ainda não são realidade, um dia você vai olhar para eles e dizer: eu consegui. Acredite em você e no seu potencial, porque você é capaz”.

A construção da autonomia também faz parte da rotina de Eduardo Scatena, 22 anos. Universitário e estagiário, ele associa a vida adulta à capacidade de assumir responsabilidades e conquistar independência. Uma das maiores alegrias recentes foi conseguir um novo emprego. “Eu não estava aguentando mais o período de transição. Arrumar esse novo trabalho foi uma conquista da qual me orgulho”, conta.

Para Marina, é justamente na entrada na faculdade, no mercado de trabalho e nas exigências da vida adulta que muitos diagnósticos acabam acontecendo. “As estratégias que funcionavam na infância deixam de ser suficientes diante da complexidade da vida adulta. É comum receber adultos que passaram anos tratando ansiedade, depressão ou burnout, sem que se compreendesse a origem daquele sofrimento”, destaca.

Inclusão é permanência

Embora os avanços em relação ao diagnóstico tenham aumentado, a inclusão na vida adulta ainda enfrenta obstáculos importantes. “Entrevistas de emprego baseadas apenas em carisma ou dinâmicas de grupo acabam excluindo profissionais tecnicamente brilhantes. O excesso de estímulos, a falta de previsibilidade e a comunicação corporativa implícita também geram sofrimento e dificultam a permanência dessas pessoas nos ambientes profissionais”, explica Marina.

Na universidade e no trabalho, Eduardo acredita que ainda falta compreensão sobre as particularidades de cada indivíduo. “Cada caso é um caso. Falta mais entendimento e recursos para ajudar as pessoas autistas”, diz.

Ele também costuma orientar outros jovens que estão começando a vida profissional. “Não tenham medo de tirar dúvidas e expliquem aos seus superiores a sua condição. Muitas vezes existe possibilidade de flexibilização e adaptação no ambiente de trabalho”, afirma.

Para Marina, a inclusão real vai além de permitir a entrada das pessoas autistas nos diferentes espaços. “Inclusão não é abrir a porta e deixar a pessoa entrar. É modificar o ambiente para que ela possa permanecer e produzir com dignidade”, diz.

Orgulho, identidade e pertencimento

Quando se fala em orgulho autista, a psicóloga Marina Lima acredita que a principal mudança necessária é abandonar a ideia de que o autismo deve ser visto apenas sob a ótica da deficiência ou da falta. “O autismo é uma configuração do neurodesenvolvimento que traz uma forma diferente de processar o mundo, com suas próprias barreiras e suas próprias potências. Celebrar o orgulho autista é validar a identidade dessas pessoas. Não estamos buscando a cura de uma identidade; buscamos a cura do preconceito, da exclusão e da falta de acessibilidade”, afirma.

Ao longo dos últimos anos, a psicóloga percebeu que muitos adultos recebem o diagnóstico como uma forma de finalmente compreender a própria trajetória. “A frase que mais escuto no consultório é: ‘Finalmente minha vida faz sentido. Eu não sou quebrado, eu sou autista’”, relata.

Para ela, o futuro da inclusão passa justamente por ouvir as vozes das próprias pessoas autistas. “Precisamos construir ambientes em que o respeito à singularidade seja a regra, e não a exceção”, finaliza.

Compartilhe esta notícia:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Aviso de Direitos Autorais

Todos os direitos sobre os conteúdos publicados em todas as mídias sociais do Diário PcD, incluindo textos, imagens, gráficos, e qualquer outro material, estão reservados e são protegidos pelas leis de direitos autorais.
Todos os Direitos Reservados.
Nenhuma parte das publicações em todas as mídias sociais do Diário PcD devem ser reproduzidas, distribuídas, ou transmitidas de qualquer forma ou por qualquer meio, incluindo fotocópia, gravação, ou outros métodos eletrônicos ou mecânicos, sem a prévia autorização por escrito do titular dos direitos autorais, de acordo com a legislação vigente.
Para solicitações de permissão para usos diversos do material aqui apresentado, entre em contato por meio do e-mail jornalismopcd@gmail.com ou telefone 11.99699 9955.
A infração dos direitos autorais é uma violação de Lei Federal 9.610, passível de sanções civis e criminais.

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore