Candidatas com atuação relacionada à defesa das pessoas com deficiência anunciam saída das eleições; Ivan Baron chegou a cogitar desistência no RN, mas decidiu permanecer na disputa
A participação de pessoas diretamente ligadas à pauta das pessoas com deficiência nas Eleições 2026 enfrenta novas baixas. Dryka Cruz é fundadora da Associação Mães que Cuidam e que Transformam – mãe atípica e estava candidata a deputada estadual pelo PSDB em Minas Gerais. Ela anunciou pelas redes sociais o cancelamento de sua candidatura, citando falta de verba e apoio estrutural.
A decisão foi comunicada pela própria candidata em uma nota publicada em material de divulgação. No documento, Dryka afirma que deixa a disputa, mas ressalta que sua atuação em defesa da inclusão e dos direitos das pessoas com deficiência e de suas famílias continuará.
“Por questão de falta de verba e apoio estrutural, venho por meio deste flyer notificar o cancelamento da minha candidatura a deputada estadual pelo PSDB.”
Na mesma mensagem, a candidata agradece às pessoas que acreditaram em seu projeto e afirma que sua luta pela inclusão continuará “agora de outras formas”.
A candidatura de Dryka Cruz, nome de urna de Adriane Cristina da Cruz, estava registrada em Minas Gerais pelo PSDB, número 45445. Dados eleitorais consultados ainda indicavam o registro como “aguardando julgamento”, o que reforça a importância de diferenciar a situação jurídica do registro da decisão política anunciada pela própria candidata de não prosseguir na disputa.
Isabelle Passinho também renuncia
Outro nome com atuação relacionada às pautas de inclusão que deixou a disputa foi Isabelle Passinho, candidata a deputada federal pelo MDB no Maranhão. Ela é advogada especialista em Acessibilidade. Foi vice presidente do Conselho estadual dos direitos das pessoas com deficiência do MA(2017-2019) e segue no órgão representado a OAB/MA
O registro de Isabelle passou a constar como “Renúncia” no cadastro eleitoral. Ela concorreria ao cargo de deputada federal pelo Maranhão, com o número 1577.
Advogada e ativista, Isabelle já havia participado de disputas eleitorais anteriores.
A saída de Isabelle representa mais uma redução no número de candidaturas de pessoas ou de nomes diretamente associados à defesa da inclusão no processo eleitoral deste ano.
Ivan Baron chegou a cogitar desistência
Outro episódio chamou atenção nos últimos dias.
No Rio Grande do Norte, Ivan Baron, candidato a deputado estadual pelo PT, chegou a avaliar a possibilidade de abandonar a disputa após manifestar insatisfação com os recursos destinados à sua campanha.
O candidato, que tem paralisia cerebral e é conhecido nacionalmente por sua atuação em defesa das pessoas com deficiência, afirmou ter recebido R$ 24.275 em recursos partidários e questionou as condições para realizar uma campanha estadual com esse orçamento.
A possibilidade de desistência chegou a ser noticiada no final de agosto, diante da insatisfação com a distribuição dos recursos do fundo eleitoral.
Após reunião com sua equipe, o candidato afirmou que o grupo decidiu não desistir e que a campanha seria reorganizada, com uma estrutura mais enxuta e maior utilização das redes sociais.
Atualmente, sua candidatura consta como deferida e concorrendo à Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte.
Três situações diferentes
Os três casos não são juridicamente ou politicamente iguais.
Dryka Cruz anunciou o cancelamento de sua candidatura, apontando falta de verba e apoio estrutural.
Isabelle Passinho renunciou à candidatura, situação registrada no sistema eleitoral.
Ivan Baron chegou a avaliar a desistência, mas decidiu continuar na disputa após redimensionar sua campanha.
O ponto em comum entre os episódios está nas dificuldades enfrentadas por candidaturas que buscam levar para o processo eleitoral uma pauta diretamente relacionada às pessoas com deficiência.
E essa discussão ganhou ainda mais relevância depois da audiência pública realizada no Senado Federal em 3 de setembro, que tratou justamente da participação das pessoas com deficiência no processo eleitoral.
Cresce o eleitorado, mas a representatividade continua sendo um desafio
Durante a audiência, a ANAPcD – Associação Nacional de Apoio às Pessoas com Deficiência apresentou dados que mostram um cenário contraditório.
O eleitorado com deficiência chegou a 1.970.165 pessoas em 2026, crescimento de 42% em relação a 2022.
Já o número de registros de candidaturas de pessoas que declararam deficiência passou de 489, em 2022, para 518, em 2026 — crescimento inferior a 6%.
A entidade levou ao Senado o questionamento sobre as barreiras que podem impedir que o aumento do eleitorado seja acompanhado por uma ampliação proporcional da participação política.
Segundo a manifestação apresentada pela associação, as dificuldades podem aparecer antes mesmo do início da campanha, envolvendo acesso à informação, registro de candidaturas, plataformas digitais, divulgação e prestação de contas.
A ANAPcD também defendeu mecanismos permanentes de incentivo às candidaturas de pessoas com deficiência, incluindo acessibilidade, capacitação e condições para participação efetiva.

A pergunta que fica para as eleições de 2026
A saída de Dryka Cruz e Isabelle Passinho e a crise enfrentada por Ivan Baron colocam novamente em evidência uma questão que ultrapassa as candidaturas individuais: que condições existem, de fato, para que pessoas ligadas à pauta da deficiência possam disputar eleições e ocupar espaços de decisão?
A legislação brasileira garante às pessoas com deficiência o direito de participar da vida política e pública. A discussão, portanto, não envolve apenas o direito de votar.
Envolve também ser candidato, fazer campanha, ter acesso à informação, participar dos debates, divulgar propostas e disputar uma eleição com condições de acessibilidade e participação.
Foi justamente essa perspectiva que a ANAPcD levou ao Senado.
A entidade defendeu que as pessoas com deficiência precisam participar diretamente da construção das políticas que dizem respeito ao segmento.
Uma eleição também se mede pela capacidade de garantir participação
As eleições de 2026 ainda estão em andamento, e o cenário das candidaturas continuará sujeito a alterações até a consolidação dos registros pela Justiça Eleitoral.
Mas os episódios de Dryka Cruz, Isabelle Passinho e Ivan Baron já colocam uma questão concreta no centro do debate: não basta que pessoas com deficiência tenham o direito de votar. É preciso que também tenham condições reais de chegar às urnas como candidatas e candidatos.
E, para isso, acessibilidade, estrutura, financiamento, apoio partidário e participação política precisam fazer parte da discussão eleitoral.




