“Sou autista e luto pelo fim da violência contra a mulher!” propõe debate sobre misoginia, capacitismo, invisibilização e direitos humanos
A ABRAÇA (Associação Brasileira para Ação por Direitos das Pessoas Autistas) lançou no dia 18 de junho, dia do orgulho autista, sua campanha nacional de 2026: “Sou autista e luto pelo fim da violência contra a mulher!”.
A iniciativa busca ampliar o debate público sobre violência de gênero e deficiência, chamando atenção para a realidade frequentemente invisibilizada das mulheres autistas no Brasil.
A campanha parte do entendimento de que a violência contra mulheres autistas não pode ser analisada apenas pela perspectiva do gênero ou apenas pela perspectiva da deficiência. Ela está situada no cruzamento entre misoginia, capacitismo, invisibilização, barreiras de comunicação, subdiagnóstico, infantilização, dependência econômica, ausência de acessibilidade e dificuldade de acesso às redes de proteção.
Dados recentes sobre violência contra a mulher e contra pessoas com deficiência mostram como o tema é urgente.
Segundo o Atlas da Violência 2026, entre as 24.946 notificações de violência contra pessoas com deficiência registradas em 2024 no Sinan/MS, 17.262 envolveram mulheres com deficiência, o que corresponde a aproximadamente 69,2% do total. Destas, 60,6%, ocorreram no contexto doméstico, percentual superior ao observado entre homens com deficiência, de 50%.
O mesmo levantamento aponta taxas especialmente elevadas de notificação entre mulheres com deficiência intelectual, de 81,5 por 10 mil habitantes, em contraste com 37,0 entre homens com deficiência intelectual. Há também uma concentração da violência sexual contra meninas e adolescentes com deficiência: entre mulheres com deficiência, a violência sexual correspondeu a 47,3% das notificações na faixa de 0 a 9 anos e a 52% entre 10 e 19 anos.
O país não conta com dados oficiais específicos sobre violência contra mulheres autistas, o que dificulta a formulação de políticas públicas, protocolos de atendimento e estratégias de prevenção voltadas a essa população. Dessa forma, essa é uma realidade ainda marcada pela invisibilidade não só da subnotificação, mas também do subdiagnóstico de mulheres autistas, o que contribui fortemente para a perpetuação da violência.
Para a ABRAÇA, essa ausência de dados não é apenas uma lacuna estatística. Ela revela um processo histórico de apagamento das mulheres autistas, que muitas vezes enfrentam diagnóstico tardio, descrédito em seus relatos, barreiras para nomear situações abusivas e falta de acolhimento adequado nos serviços de saúde, assistência social, segurança pública e justiça.
A campanha também chama atenção para o impacto da misoginia online sobre adolescentes e jovens autistas. Comunidades digitais que normalizam discursos antifeministas, violentos e de desumanização das mulheres têm alcançado meninos e jovens em processo de formação. Por isso, uma das frentes da campanha será a construção de diálogo acessível sobre gênero, masculinidades, convivência, respeito e enfrentamento à violência.
A iniciativa será estruturada em quatro eixos principais:
Violências contra mulheres autistas
Visibilizar violências psicológicas, sexuais, domésticas, institucionais e patrimoniais, além de discutir infantilização, tutela abusiva e barreiras de acesso à denúncia, à proteção e à justiça.
Subdiagnóstico e invisibilização
Enfrentar o apagamento histórico do autismo em mulheres e meninas, ampliando o debate sobre diagnóstico tardio, reconhecimento de diferentes expressões do autismo e produção de dados públicos.
Sobrecarga de mulheres autistas cuidadoras
Reconhecer a realidade de mulheres autistas que exercem funções de cuidado de filhos, familiares e parceiros, muitas vezes sem rede de apoio, suporte psicossocial ou políticas públicas adequadas.
Acessibilidade aos serviços e à rede de proteção
Discutir os obstáculos enfrentados por mulheres autistas no acesso a serviços de qualidade, como casas de acolhimento, serviços de apoio, atendimento especializado na segurança pública, assistência social, saúde e sistema de justiça. O eixo também busca defender a garantia de medidas efetivas de prevenção da violência, proteção judicial, acolhimento acessível, escuta qualificada e atendimento humanizado, considerando as especificidades de comunicação, autonomia e suporte das mulheres autistas.
Papel dos homens autistas no enfrentamento ao machismo
Convocar homens e jovens autistas para o debate sobre misoginia online, masculinidades, consentimento e responsabilidade coletiva no enfrentamento à violência contra mulheres.
Estudos internacionais apontam que mulheres autistas apresentam maior vulnerabilidade à violência psicológica, sexual, institucional e doméstica, especialmente em contextos marcados por dependência econômica, isolamento social, infantilização e dificuldade de reconhecimento de situações abusivas.
Ao longo de 2026, a ABRAÇA prevê a realização de rodas de conversa, mobilizações em redes sociais, produção de materiais educativos acessíveis, ações públicas em diferentes regiões do país e incidência política junto a órgãos de proteção e ao Sistema de Garantia de Direitos. Os materiais deverão contemplar recursos como linguagem simples, Libras e audiodescrição, reforçando o compromisso da campanha com acessibilidade e participação social.
A campanha dialoga com marcos legais como a Lei Brasileira de Inclusão, a Política Nacional dos Direitos da Pessoa Autista, a Lei Maria da Penha e a Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Para a associação, enfrentar a violência contra mulheres autistas é uma pauta urgente de direitos humanos, justiça social, acessibilidade e combate simultâneo ao machismo e ao capacitismo.
Ao afirmar “Sou autista e luto pelo fim da violência contra a mulher!”, a ABRAÇA promove o reconhecimento de todas as pessoas autistas como agentes políticos ativos na construção de uma sociedade sem violências.
Mais informações sobre a campanha, materiais e calendário de ações serão divulgados nos canais oficiais da ABRAÇA ao longo de 2026.
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