Vanessa Cristina, corredora em cadeira de rodas da ADD, que participou dos Jogos Paralímpicos de Tóquio e Paris, se prepara para novas competições com o objetivo de disputar os Jogos de Los Angeles 2028
Chegar ao alto nível no esporte paralímpico exige muito mais do que treino diário. Para atletas com deficiência, o acesso a equipamentos adequados, estrutura, acompanhamento de especialistas e apoio financeiro são essenciais para seguir na carreira. No Dia Nacional do Atleta Paralímpico, comemorado em 22 de setembro, a Associação Desportiva para Deficientes (ADD) reforça a importância do apoio contínuo aos atletas e do investimento no esporte adaptado, desde o início até o alto rendimento.
A história da corredora em cadeira de rodas Vanessa Cristina de Souza, da classe T54, mostra bem esses desafios e oportunidades. Atleta paralímpica que disputou os Jogos de Tóquio e Paris, Vanessa encontrou no esporte um novo caminho após amputar uma perna, em 2014, devido a um acidente de moto. Hoje, na equipe da Associação Desportiva para Deficientes (ADD), ela treina com foco em conquistar uma medalha paralímpica e garantir sua vaga nos Jogos de Los Angeles 2028.
Do acidente à pista paralímpica
O primeiro contato de Vanessa com o esporte adaptado aconteceu durante a sua recuperação. Cerca de oito meses após o acidente, um professor de educação física viu sua prótese e sugeriu que ela conhecesse modalidades para pessoas com deficiência. Vanessa foi até a cidade de Santos, onde conheceu a equipe Fast Wheels e seu atual treinador, Eduardo Leonel.
No início, ela começou no atletismo de campo, com provas de lançamento, até experimentar a cadeira de corrida e encontrar sua verdadeira modalidade. A decisão de seguir no esporte de alto rendimento ficou mais forte durante os Jogos Paralímpicos do Rio 2016, quando assistiu às provas e definiu uma meta: sair da arquibancada para competir nas pistas.
“Quando fui assistir aos Jogos Paralímpicos do Rio 2016, fiz uma promessa a mim mesma: nos Jogos de Tóquio eu não estaria na torcida, mas sim nas pistas competindo. E consegui cumprir”, conta a atleta.
Em 2017, outro momento foi marcante em sua evolução. A cadeira de rodas emprestada pelo clube já não oferecia as condições necessárias para melhorar seus resultados. Com recursos próprios e a ajuda de uma arrecadação organizada por apoiadores do esporte em Santos, Vanessa comprou no Japão uma cadeira feita sob medida.
A compra de equipamentos é um dos grandes desafios dos atletas da modalidade, que precisam de cadeiras de rodas esportivas, pneus e luvas importados. Como compete em maratonas, a segurança nos treinos de rua também é uma preocupação diária. Para treinar de madrugada com tranquilidade, Vanessa conta com a ajuda do grupo de ciclismo Guardiões das Rodas, que a acompanha durante os trajetos.
Além dos desafios de estrutura, Vanessa também buscou reforçar a presença feminina no esporte. O capacete e a cadeira rosa, junto com o uso de batom nas provas, tornaram-se marcas registradas para mostrar que as mulheres também têm espaço no atletismo paralímpico.
Suporte da ADD contribui para a preparação esportiva
A chegada à Associação Desportiva para Deficientes (ADD) representou uma mudança significativa na rotina de Vanessa. Por meio do treinador e de amigos que já integravam a equipe, a atleta conheceu a associação e recebeu apoio para se mudar para São Paulo. A instituição contribuiu com o aluguel e outras despesas, possibilitando que ela se estabelecesse na capital e mantivesse uma rotina de treinamento próxima à estrutura do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).
Com acesso à pista de atletismo, academia e equipe de apoio com fisioterapeutas, psicólogos e massagistas, Vanessa passou a ter melhores condições para sua preparação esportiva.
“A ADD mudou tudo ao me dar o suporte necessário para morar em São Paulo. Eles me ajudaram com o aluguel e outras despesas, permitindo que eu me mantivesse na cidade e focasse totalmente nos treinos. Nunca tive um clube que me ajudasse tanto e de forma tão direta”, afirma Vanessa.
Para Eliane Miada, fundadora presidente do Conselho da Associação Desportiva para Deficientes (ADD), a trajetória da atleta reforça a necessidade de um trabalho que considere as diferentes etapas da formação e do desenvolvimento esportivo.
“O alto rendimento exige dedicação, estrutura e acompanhamento contínuo. Nosso papel, que a ADD realiza há 30 anos, é ajudar pessoas com deficiência a desenvolverem todo o seu potencial e seguirem na carreira esportiva, contando também com o apoio fundamental da Lei de Incentivo ao Esporte. Ao mesmo tempo, sabemos que tudo começa na base, dando espaço para crianças e jovens entrarem no esporte”, afirma Eliane.
O trabalho da Associação Desportiva para Deficientes (ADD) busca apoiar tanto o desenvolvimento de atletas de alto rendimento quanto a formação esportiva de crianças e jovens com deficiência. Para Vanessa, investir na base é fundamental para que o esporte paralímpico continue crescendo e novos talentos possam construir suas próprias carreiras.
“A ADD é muito importante porque não pensa só no alto rendimento, eles se preocupam muito com o esporte de base. O alto rendimento não é só lazer, é uma profissão em que levamos o corpo ao limite, e sem uma base forte ninguém chega lá”, destaca a corredora.
Preparação para novos desafios
Após participar de dois Jogos Paralímpicos, Vanessa segue em busca de sua primeira medalha. Embora reconheça a frustração por não ter subido ao pódio nas edições anteriores, ela afirma que a experiência serve de motivação para seguir melhorando seu desempenho.
Seu planejamento inclui a busca por vagas em competições no início de 2027 e a preparação para os Jogos Paralímpicos de Los Angeles 2028. Para lidar com a pressão do esporte e das redes sociais, Vanessa faz acompanhamento psicológico e procura manter o foco durante os períodos de competição.
A história da atleta reforça a importância de iniciativas que deem condições para que pessoas com deficiência encontrem no esporte uma oportunidade de desenvolvimento e de trabalho. Com ações na base e no alto rendimento, a ADD busca ampliar as oportunidades no esporte adaptado.
Sobre a ADD
A Associação Desportiva para Deficientes (ADD), fundada em 1996 por Steven Dubner e Eliane Miada, promove a melhoria da qualidade de vida de pessoas com deficiência por meio do esporte, desde a iniciação até o alto rendimento. Entre suas principais modalidades estão atletismo, basquete em cadeira de rodas (com a equipe multicampeã ADD Magic Hands), bocha paralímpica e vôlei sentado. Com quase três décadas de atuação, a ADD já atendeu mais de 14 mil pessoas, conta com cerca de 300 voluntários por ano, realizou mais de 5 mil palestras e impactou aproximadamente 2 milhões de pessoas com seus programas.
CRÉDITO/IMAGEM: Acervo pessoal Vanessa Cristina de souza





