Novos dados do IBGE expõem desigualdades nas famílias com crianças com deficiência: quando o cuidado afeta o trabalho das mães

Novos dados do IBGE expõem desigualdades nas famílias com crianças com deficiência: quando o cuidado afeta o trabalho das mães

Nível de ocupação das mulheres que vivem em domicílios com crianças com deficiência é de 43,1%, contra 55,2% naqueles sem crianças com deficiência; entre os homens, diferença praticamente não existe

Um novo informativo divulgado na última sexta-feira (18) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) coloca números nacionais em uma realidade conhecida por milhares de famílias atípicas: o impacto do cuidado de crianças com deficiência recai de forma desproporcional sobre a vida profissional das mulheres.

Na segunda edição do estudo Pessoas com Deficiência e as Desigualdades Sociais no Brasil, o IBGE mostra que, em 2022, entre mulheres de 15 a 59 anos que viviam em domicílios com crianças com deficiência, 43,1% estavam ocupadas. Nos lares com crianças sem deficiência, eram 55,2%, uma diferença de 12,1 pontos percentuais.

Entre os homens, praticamente nada mudava: o nível de ocupação era de 69,7% nos domicílios com crianças com deficiência e de 69,5% naqueles com crianças sem deficiência.

O informativo revela ainda outra face dessa realidade. Em 2022, três em cada dez crianças e adolescentes de 2 a 17 anos com deficiência (30,1%) viviam apenas com a mãe ou madrasta, ante 21,5% daqueles sem deficiência. Entre famílias abaixo da linha de pobreza, essa proporção chegava a 35,1%.

Ao mesmo tempo, 58,4% das crianças e adolescentes de 2 a 17 anos com deficiência viviam com mãe ou madrasta e pai ou padrasto. Entre aqueles sem deficiência, a proporção era de 68,1%, uma diferença de 9,7 pontos percentuais.

A vulnerabilidade econômica também aparece nos dados. Entre as crianças de 2 a 14 anos com deficiência, 60,9% viviam abaixo da linha de pobreza em 2022, ante 52,5% das crianças sem deficiência na mesma faixa etária. Nesse recorte, o IBGE considera abaixo da linha da pobreza quem vivia em domicílios com rendimento per capita inferior a R$ 770 mensais.

Os indicadores não permitem estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre deficiência, configuração familiar, participação das mulheres no mercado de trabalho e pobreza. Observados em conjunto, porém, mostram que crianças com deficiência estão mais sujeitas a viver somente com a mãe ou madrasta, que as mulheres que vivem em domicílios com crianças com deficiência apresentam menor nível de ocupação e que a pobreza atinge uma parcela maior dessas crianças.

Para a psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato, os números ajudam a dimensionar uma sobrecarga que não é apenas profissional ou financeira, mas também emocional.

“Quando uma mulher precisa reorganizar ou abandonar a vida profissional porque não existe uma rede suficiente para dividir os cuidados, não estamos falando apenas de uma mudança na carreira. Existe perda de renda, autonomia, convivência social e, muitas vezes, um estado permanente de sobrecarga. Cuidar de quem cuida precisa deixar de ser apenas um discurso e se transformar em suporte real para essas famílias”, afirma Mayra.

Essa realidade também é conhecida de perto pela jornalista Debora Saueressig, autista com diagnóstico tardio e mãe de um filho autista. Além da própria experiência, ela convive com famílias atípicas e acompanha mulheres que reorganizam praticamente toda a vida em função das necessidades dos filhos.

“Esses números dão dimensão nacional ao que nós, mães atípicas, vemos todos os dias. Muitas mulheres não deixam de trabalhar porque fizeram uma escolha livre entre carreira e maternidade. Elas deixam porque alguém precisa levar às terapias, acompanhar a escola, enfrentar a burocracia, correr atrás de direitos e estar disponível quando não existe outra pessoa ou serviço para fazer isso. O que muitas vezes é chamado de escolha materna é, na prática, falta de escolha”, afirma Debora.

A falta de apoio também aparece na escola

A pesquisa ajuda a mostrar que a discussão não termina dentro de casa. Dados do Censo Escolar 2025 apresentados no informativo do IBGE indicam que apenas 26,2% das escolas de educação básica possuem profissional de apoio para estudantes com deficiência, enquanto 30% dispõem de sala de recursos multifuncionais.

Para o doutor em Educação Lucelmo Lacerda de Brito, a ausência de suporte adequado nos diferentes espaços frequentados pela criança acaba repercutindo diretamente sobre as famílias.

“Quando a escola não dispõe dos recursos, da acessibilidade e dos apoios necessários para garantir a participação do estudante com deficiência, parte dessa responsabilidade acaba voltando para a família. E os dados mostram quem, majoritariamente, absorve esse impacto. Inclusão não pode depender da disponibilidade permanente de uma mãe para suprir aquilo que deveria estar garantido por uma rede estruturada de apoio”, analisa Lucelmo.

Menos trabalho hoje também pode significar maior vulnerabilidade no futuro

A saída ou a redução da participação das mulheres no mercado de trabalho pode produzir consequências que aparecem muitos anos depois. Menos tempo de atividade profissional pode significar também períodos menores de contribuição para a Previdência Social.

Para a advogada previdenciária Débora Knust, especialista em benefícios do INSS, esse aspecto precisa entrar na discussão sobre a proteção das famílias.

“Quando uma mulher reduz a jornada ou deixa o mercado para assumir os cuidados de um filho com deficiência, o impacto não termina na renda daquele mês. Dependendo da situação, ela também pode interromper contribuições previdenciárias e comprometer sua própria proteção em casos de incapacidade, maternidade e aposentadoria. Por isso, essas famílias precisam receber orientação sobre os direitos existentes e sobre formas de preservar a proteção previdenciária de quem cuida”, explica Débora.

Os novos números do IBGE mostram, portanto, que discutir deficiência e inclusão exige olhar não apenas para a pessoa que necessita de apoio, mas também para quem sustenta diariamente essa rede de cuidado.

O nível de ocupação das mulheres que vivem em domicílios com crianças com deficiência é 12,1 pontos percentuais menor do que entre aquelas que vivem em domicílios com crianças sem deficiência. Entre os homens, praticamente não há diferença. Ao mesmo tempo, crianças e adolescentes com deficiência aparecem com maior frequência em domicílios apenas com mãe ou madrasta, e as crianças com deficiência apresentam maior incidência de pobreza. Os dados ajudam a revelar como a distribuição do cuidado e seus efeitos econômicos ainda atingem mulheres e famílias de forma desigual no Brasil.

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