Falta de previsibilidade ainda faz famílias neurodivergentes desistirem de sair de casa

Falta de previsibilidade ainda faz famílias neurodivergentes desistirem de sair de casa

Orbi360 desenvolve metodologia que orienta empresas sobre inclusão e oferece às famílias mais segurança para avaliar restaurantes, escolas, hotéis e outros ambientes antes de sair de casa

Um simples convite para almoçar fora, passear no shopping ou conhecer um parque pode representar um desafio para milhares de famílias neurodivergentes. Antes mesmo de sair de casa, começam as dúvidas: o ambiente será muito barulhento? A iluminação poderá causar desconforto? A equipe saberá acolher uma pessoa autista? Existe um espaço tranquilo caso seja necessária uma pausa sensorial?

Sem essas respostas, muitas famílias simplesmente desistem do passeio e deixam de frequentar espaços públicos e privados por medo do desconhecido.

“Para uma família atípica, a experiência não começa quando ela chega ao destino. Ela começa em casa, na hora de decidir se vale a pena sair. Quando não existe previsibilidade, muitas vezes o medo do desconhecido acaba limitando momentos de lazer, convivência e inclusão”, afirma Wendy Wendy Albuquerque, co-fundadora fundadora do Orbi360.

Segundo o Censo Demográfico de 2022, divulgado pelo IBGE, o Brasil possui cerca de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o equivalente a 1,2% da população. Entre crianças de 5 a 9 anos, a incidência chega a uma em cada 38.

Essa preocupação das famílias também encontra respaldo na literatura científica. Estudos apontam que fatores como excesso de ruído, iluminação intensa, cheiros marcantes e ambientes muito movimentados podem provocar respostas fisiológicas relacionadas ao estresse em pessoas neurodivergentes, tornando atividades simples do cotidiano significativamente mais desafiadoras.

Apesar desse cenário, ainda são raras as ferramentas capazes de oferecer às famílias informações que permitam prever como será a experiência antes da visita.

O desafio também existe do outro lado. Muitos estabelecimentos desejam oferecer ambientes mais acolhedores, mas não sabem exatamente por onde começar.

Foi para aproximar essas duas realidades, famílias em busca de previsibilidade e empresas interessadas em evoluir na inclusão, que nasceu o Neurindex, metodologia desenvolvida pelo Orbi360 para transformar experiências individuais em informações estruturadas capazes de orientar decisões dos dois lados.

A experiência começa antes da porta de entrada

O conceito que orienta o desenvolvimento do Neurindex parte de uma ideia simples: inclusão não começa quando a pessoa chega ao estabelecimento. Ela começa muito antes, no momento em que a família decide se vale a pena sair de casa.

Desenvolvida ao longo de três anos por uma equipe multidisciplinar formada por especialistas em tecnologia, profissionais da saúde, educadores e famílias atípicas, a metodologia transforma esse conceito em critérios objetivos capazes de orientar estabelecimentos sobre oportunidades reais de evolução.

Para construir essa avaliação, o Neurindex considera aspectos que normalmente não aparecem em aplicativos tradicionais, mas que fazem diferença para pessoas neurodivergentes, como estímulos sensoriais, organização dos ambientes, sinalização, atendimento, acessibilidade física e acolhimento a animais de assistência. A proposta não é atribuir uma nota definitiva aos estabelecimentos, mas indicar oportunidades concretas de melhoria para que evoluam continuamente em inclusão.

“O que percebemos é que a maioria das empresas quer fazer o melhor, mas falta orientação. Muitas vezes pequenas mudanças fazem uma grande diferença para uma família neurodivergente. Nosso papel não é apontar erros, mas mostrar caminhos para que esses ambientes evoluam continuamente”, explica Willyan Fernandes, co-fundador do Orbi360.

Informação também é acessibilidade

Antes de existir uma metodologia, existiam milhares de experiências compartilhadas entre famílias atípicas em grupos de WhatsApp, redes sociais e conversas do dia a dia.

“O conhecimento já existia dentro da comunidade. O problema é que ele estava espalhado em conversas, grupos e experiências individuais. Percebemos que era possível transformar essa inteligência coletiva em uma metodologia estruturada, capaz de beneficiar tanto outras famílias quanto os próprios estabelecimentos”, afirma Willyan.

As contribuições são feitas pelas próprias famílias, seguindo critérios padronizados pelo Neurindex, e passam por um processo de moderação que combina inteligência artificial e validação humana antes de serem disponibilizadas na plataforma.

Além das avaliações, o Orbi360 reúne informações que ajudam as famílias a planejarem seus deslocamentos com mais segurança, como perfil sensorial dos ambientes, previsão do tempo, índice UV, horários de maior movimento e relatos compartilhados pela comunidade.

Para as famílias, o objetivo é reduzir a insegurança antes de um passeio. Para os estabelecimentos, a proposta é oferecer informações que permitam identificar oportunidades concretas de melhoria, transformando a inclusão em um processo contínuo de evolução.

Quando um ambiente melhora para um, melhora para todos

Para Roger Maia, arquiteto e engenheiro de software e também co-fundador do Orbi360, investir em inclusão beneficia um público muito mais amplo do que apenas pessoas neurodivergentes.

“Quando um restaurante reduz estímulos sonoros, melhora a sinalização ou prepara sua equipe para acolher diferentes necessidades, ele melhora a experiência para todos. Crianças, idosos, gestantes, pessoas com deficiência e qualquer cliente que busque um ambiente mais confortável acabam sendo beneficiados.”

Segundo o engenheiro, esse é o principal propósito da plataforma.

“Durante muito tempo discutimos o que faltava para a inclusão acontecer. Agora queremos contribuir mostrando como ela pode acontecer. Quando uma família deixa de sair de casa porque não sabe o que vai encontrar, todos perdem. Queremos que a informação seja o primeiro passo para que essas famílias voltem a ocupar espaços que sempre deveriam ter sido delas.”

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