OPINIÃO
- Por Jairo Varella Bianeck
Em Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez conta a história da família Buendía e da cidade de Macondo. O tempo passa, as pessoas mudam, mas os nomes e os erros retornam. Cada geração acredita estar começando uma história nova, embora repita aquilo que a anterior não conseguiu resolver.
Entre os temores da família está o nascimento de uma criança com rabo de porco. É uma imagem criada dentro do universo fantástico do romance e não deve ser confundida com deficiência.
Vista com os olhos de hoje, por que algumas diferenças despertam tanto medo?
Nenhum corpo é um erro, um castigo ou uma ameaça. O problema não está em quem nasce ou vive de maneira diferente. Está no olhar que transforma a diversidade humana em vergonha, incapacidade ou motivo de exclusão.
Esse medo não ficou preso em Macondo.
O Brasil possui leis importantes para proteger as pessoas com deficiência. A Constituição, a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e a Lei Brasileira de Inclusão reconhecem autonomia, igualdade e participação social.
Ainda assim, muitas pessoas continuam obrigadas a provar, repetidas vezes, por que precisam de acessibilidade e por que determinada barreira impede o exercício de um direito.
É como se cada órgão público começasse a história do primeiro capítulo.
A avaliação da deficiência mostra isso.
A Lei Brasileira de Inclusão determinou que, quando necessária, essa avaliação não considere apenas o diagnóstico. Deve observar também as barreiras, as condições de vida, as atividades realizadas e a participação da pessoa na sociedade.
O prazo previsto na lei terminou em janeiro de 2018, mas a implantação nacional do modelo ainda não foi concluída.
Em 2026, o próprio governo informou à Câmara dos Deputados que o instrumento técnico estava estruturado, validado e testado. Reconheceu, porém, que ainda faltavam decisões sobre regulamentação, financiamento e implantação.
Enquanto não existe um padrão nacional, uma mesma pessoa pode passar por avaliações diferentes e receber respostas contraditórias.
Em uma porta, ela é reconhecida como pessoa com deficiência. Em outra, não.
A Associação Nacional de Apoio às Pessoas com Deficiência (ANAPcD) levou essa demora ao Supremo Tribunal Federal. A entidade pede que o Estado conclua e disponibilize o modelo em todo o país, apresente um cronograma e assegure a participação das pessoas com deficiência e de suas organizações.
A ação ainda será julgada.
Em Macondo, os sinais estão presentes, mas as pessoas demoram a compreender o que eles significam. No Brasil, as leis apontam o caminho, mas sua realização é constantemente adiada.
A reforma tributária trouxe outro exemplo.
Ao regulamentar a futura alíquota zero na compra de determinados veículos, a lei separou pessoas conforme o grau da deficiência mental ou do autismo. Parte delas seria excluída porque sua condição não seria considerada suficientemente grave.
A ANAPcD questionou essa divisão. Em agosto de 2026, o Supremo afastou as expressões que restringiam o benefício.
A lei era recente, mas repetia uma ideia antiga: a de que algumas pessoas seriam merecedoras de proteção e outras não, embora todas estivessem protegidas pelo mesmo conceito legal de deficiência.
É nesse ponto que Macondo parece tão próxima.
No livro, o problema não é a falta de acontecimentos. A família vive amores, guerras, descobertas, prosperidade e perdas. O problema é não transformar experiência em aprendizado.
Entre nós, mudam os governos, os formulários e os programas. A pessoa com deficiência, porém, continua encontrando barreiras que já deveriam ter sido removidas.
Existe uma solidão profunda nisso: estar presente e não ser considerado; falar e não ser ouvido; possuir um direito e continuar impedido de exercê-lo.
A atuação coletiva ajuda a romper esse isolamento. Uma associação não fala no lugar das pessoas com deficiência. Ela reúne vozes e impede que problemas repetidos sejam tratados como histórias individuais.
Cem Anos de Solidão não é um livro sobre deficiência. É um livro sobre memória, silêncio, poder e repetição. Talvez por isso ajude a compreender o que acontece quando uma sociedade avança no papel, mas continua presa aos mesmos medos.
Quem iniciar a leitura encontrará nomes que se repetem e um tempo que parece andar em círculos. Não é distração do autor. É parte da experiência.
Aos poucos, Macondo deixa de parecer uma cidade tão distante.
Quantas vezes ainda precisaremos repetir a mesma história antes de aprender com ela?
Vale a leitura.

- * Jairo Bianeck é advogado, militante do campo progressista e Defensor dos Direitos das Pessoas com Deficiência
@jairovbianeck.adv – Instagram
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