O capacitismo que parece elogio

O capacitismo que parece elogio - OPINIÃO - * Por Igor Lima

OPINIÃO

  • * Por Igor Lima

Quando a admiração esconde o preconceito que não queremos ver

Existe uma forma de preconceito que raramente é reconhecida como tal, porque se apresenta disfarçada de elogio. Ela aparece quando alguém observa uma pessoa com deficiência realizando uma tarefa comum, como ir ao trabalho, praticar esporte ou simplesmente viver sua rotina, e reage como se estivesse diante de um feito extraordinário.

A frase costuma vir carregada de boa intenção: “que exemplo de superação”, “isso é uma inspiração”, “se ele consegue, eu não tenho desculpa”. Poucas frases parecem tão inofensivas. E, no entanto, poucas revelam tanto sobre a forma como a sociedade ainda enxerga a deficiência.

O problema de transformar rotina em espetáculo

A ativista australiana Stella Young cunhou a expressão inspiration porn para descrever esse fenômeno: a transformação de pessoas com deficiência em objetos de inspiração para pessoas sem deficiência, retiradas de sua individualidade e reduzidas a uma lição de motivação para os outros.

O efeito prático dessa lógica é sutil, mas profundo. Ao tratar como extraordinário aquilo que é apenas rotina, a sociedade revela a expectativa implícita de que pessoas com deficiência deveriam, na verdade, fazer menos, ou nem deveriam conseguir realizar essas tarefas. A admiração, nesse caso, não nasce da conquista em si, mas da surpresa diante de uma capacidade que não deveria surpreender ninguém.

Capacitismo com boa intenção continua sendo capacitismo

A antropóloga Anahi Guedes de Mello descreve o capacitismo como um sistema de crenças que hierarquiza corpos e mentes a partir de um padrão considerado ideal de funcionalidade, atribuindo menor valor a tudo que se afasta dele. Esse sistema não se manifesta apenas em agressões explícitas ou exclusões evidentes. Ele também se expressa em gestos aparentemente afetuosos, que reforçam a ideia de que a pessoa com deficiência é, antes de tudo, um corpo em desvantagem que precisa ser admirado por não corresponder a essa expectativa.

Esse tipo de discurso tende a generalizar experiências profundamente diversas. Reduz vidas inteiras, com suas particularidades, dificuldades reais e conquistas legítimas, a uma narrativa única de superação, construída para inspirar quem assiste, e não para representar quem vive.

O que o elogio deixa de lado

Quando a inspiração se torna o centro do discurso, a pauta de direitos perde espaço. Fala-se pouco sobre acessibilidade arquitetônica, sobre a falta de intérpretes de Libras, sobre a exclusão no mercado de trabalho ou sobre barreiras educacionais. Fala-se muito sobre superação individual, como se o problema estivesse na pessoa, e não nas barreiras que a sociedade insiste em manter.

A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, ao consagrar o modelo social e biopsicossocial da deficiência, deixou claro que a limitação não está apenas no corpo, mas na interação entre esse corpo e as barreiras impostas pelo ambiente. Quando o discurso da inspiração ignora essa interação, ele devolve à pessoa com deficiência a responsabilidade exclusiva por superar barreiras que, na verdade, deveriam ser eliminadas pela coletividade.

Elogiar sem infantilizar

Reconhecer conquistas é legítimo e necessário. O problema não está em admirar, mas em admirar de forma desproporcional apenas porque a pessoa admirada tem deficiência. A diferença está em tratar a pessoa com deficiência como sujeito de sua própria trajetória, e não como personagem de uma narrativa construída para o conforto alheio.

Talvez o primeiro passo para superar esse tipo de capacitismo seja simples: perguntar-se, antes de elogiar, se aquela mesma reação existiria diante da mesma atitude realizada por alguém sem deficiência. Se a resposta for não, talvez o elogio diga mais sobre nossos próprios preconceitos do que sobre qualquer mérito alheio.

Porque a inclusão de verdade não precisa de aplausos. Precisa de igualdade.

  • * Igor Lima é advogado (OAB/RJ), especialista em Direitos Humanos e sustentabilidade, e pessoa com deficiência. Coordenador da coletânea jurídica “Deficiência e os Desafios para uma Sociedade Inclusiva”, citada no STJ, TST, STF e presente em instituições como Harvard e Universidade de Coimbra. Autor de artigos publicados em espaços como ABDConst, Future Law e revistas jurídicas nacionais, atua como palestrante em instituições como UERJ, UFRJ, UFF, OAB/RJ e MPRJ. Dedica-se à pesquisa e defesa dos direitos das pessoas com deficiência, com experiência em inclusão, políticas públicas e ESG.   
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