O cérebro pode dar o primeiro sinal: declínio cognitivo antecede perda muscular em idosos

O cérebro pode dar o primeiro sinal: declínio cognitivo antecede perda muscular em idosos

Declínio cognitivo pode anteceder perda muscular em idosos. Tese usa neuroimagem para mapear alterações cerebrais ligadas à fragilidade física

conexão entre sarcopenia, fragilidade física e desempenho cognitivo em idosos foi o tema do doutorado da gerontóloga Gabriela Cipolli, realizado na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. A tese foi vencedora do Prêmio Tese Destaque da Unicamp 2025–2026, na área de Ciências Biológicas e da Saúde. Ao realizar exames de neuroimagem, Cipolli verificou que a fragilidade nos idosos está associada a alterações na substância branca do corpo caloso cerebral. Em outra fase do estudo, analisando dados do estudo Fragilidade em Idosos Brasileiros (Fibra), a pesquisadora demonstrou que o comprometimento cognitivo prediz a sarcopenia após nove anos. Os achados contribuem para desvelar ainda mais a relação entre cérebro, músculos e cognição e apontam caminhos para prevenção e diagnósticos de enfermidades.

A sarcopenia é definida como a perda de massa e de função muscular, enquanto a fragilidade física refere-se ao declínio de sistemas fisiológicos, levando à diminuição de resistência a estressores, ou seja, a qualquer evento que perturbe o organismo. Já o desempenho cognitivo diz respeito à eficiência do cérebro em processar informações, tomar decisões e resolver problemas, entre outras atividades. O comprometimento cognitivo ocorre quando há diminuição das habilidades cognitivas, afetando funções como o raciocínio e a memória. 

A tese é o primeiro estudo a identificar, por meio de exames de imagem avançados, as alterações cerebrais relacionadas à fragilidade em idosos sem demência. “Utilizamos uma técnica chamada DTI [imagem por tensor de difusão, na sigla em inglês]. No cérebro existem ritmos de água, ele vê esse fluxo da água dentro da substância branca do cérebro”, explica.

O DTI compreende alguns parâmetros acerca da difusão da água no cérebro, que possuem significados clínicos distintos. No estudo de Cipolli, que utilizou uma técnica de análise do físico e médico Brunno Machado de Campos, foram encontradas alterações na anisotropia fracionada (AF), a qual aponta o grau de direcionalidade com que a água se move ao longo das fibras da substância branca. Níveis menores de AF podem sugerir perda de organização das fibras e desorganização dos tratos e da capa de mielina que protege os neurônios (desmielinização).

“Identificamos que pessoas com fragilidade tinham um aumento de hiperintensidades da substância branca no corpo caloso, que é uma parte da região cerebral envolvida na parte motora, o que faz sentido por a fragilidade envolver aspectos físicos, como diminuição da velocidade da marcha e da força muscular”, aponta a gerontóloga.  

Participaram do estudo 51 idosos, sendo 29 reavaliados no seguimento do estudo Fibra em Campinas, e 22 idosos acompanhados no Ambulatório de Geriatria do Hospital de Clínicas da Unicamp, sob a responsabilidade do professor André Fattori.

Músculo-cérebro

Gabriela Cipolli, orientada pela professora da FCM Mônica Yassuda, realizou três estudos em sua tese. Primeiro, foram analisados dados de 521 idosos do Fibra, um estudo multicêntrico sediado na Unicamp que coletou dados de mais de 4 mil idosos em duas ondas: entre 2008 e 2009 e entre 2016 e 2017. A médica visava entender a relação entre sarcopenia e comprometimento cognitivo, com a hipótese de que a sarcopenia era um preditor do comprometimento cognitivo. Diferentemente do que esperava, ela encontrou a relação contrária. 

“Esse foi o primeiro estudo, em nosso conhecimento, que teve essa visão inversa. Acreditávamos que a sarcopenia iria predizer problema cognitivo, e achamos a relação na outra direção. Nós suspeitamos, na verdade, que seja bidirecional: tanto a sarcopenia e a fragilidade podem levar a problemas cognitivos, como o inverso também. São coisas que se alimentam”, pondera Yassuda. 

A segunda pesquisa foi uma revisão de escopo (mapeamento exaustivo de toda a literatura que já existe sobre o tema) sobre estudos na área de neuroimagem e fragilidade. A revisão buscou mapear estruturas cerebrais e sua associação com fragilidade, a fim de ter um norte para conduzir o terceiro estudo, realizado com os exames de imagem. Segundo a autora, os 17 estudos mapeados eram bastante diversos e não produziram um consenso. Porém, dois deles identificavam que alterações no corpo caloso poderiam estar ligadas à fragilidade, o que foi confirmado com seu terceiro estudo, que também utilizou dados do Fibra.

A professora Yassuda sinaliza a importância da tese de Cipolli para diagnósticos, ao mostrar o entrelaçamento entre alterações cognitivas, musculoesqueléticas e motoras. “Temos alertado para a possibilidade de os problemas andarem juntos, então se alguém vê no hospital ou no consultório um idoso com sarcopenia ou com fragilidade, também deve suspeitar de problemas cognitivos, e vice-versa.”

Cipolli também lembra da importância das orientações da gerontologia, área que estuda o envelhecimento, para a promoção da saúde e a proteção do cérebro. “É importante pensar também nas estratégias preventivas. Por exemplo, exercícios físicos, como os de resistência, alimentação saudável, com menos consumo de produtos industrializados, e outras estratégias de estimulação e reabilitação cognitiva e estimulação cerebral: tudo isso pode nos ajudar a não ter essa perda muscular e não nos tornarmos frágeis ou pré-frágeis.”

Reconhecimento

A pesquisa de Gabriela Cipolli foi reconhecida com o Prêmio Tese Destaque da Unicamp (2025–2026) na área de Ciências Biológicas e da Saúde.  “O prêmio representa o amadurecimento do programa de pós-graduação em Gerontologia e o meu amadurecimento como pesquisadora”, diz a autora.

Para Yassuda, além de sinalizar a excelência do trabalho e a evolução do programa, que completa 30 anos em 2027, a premiação também revela a importância do estudo Fibra para as pesquisas na área. “O Fibra teve um impacto muito grande no próprio programa, porque nós conseguimos ter esse grande banco de quase 4 mil idosos na primeira coleta de dados de base, possibilitando ao programa um número muito grande de teses e dissertações”, afirma.

Cipolli, que agora está terminando um pós-doutorado na USP, também foi contemplada com uma bolsa do estudo clínico LatAm-Fingers. A gerontóloga passará um período na Argentina, junto à professora Lucia Crivelli, chefe de neuropsicologia no Instituto Fleni, referência em neurologia no país.

Fonte: Secretaria Executiva de Comunicação da UNICAMP

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