O que a neurodiversidade pode nos ensinar sobre relacionamentos 

O que a neurodiversidade pode nos ensinar sobre relacionamentos  - OPINIÃO - * Por Carla Costa

OPINIÃO

  • * Por Carla Costa

Muitas pessoas cresceram ouvindo que o amor verdadeiro é aquele em que um  parceiro “adivinha” o que o outro sente ou precisa, mas nos relacionamentos  neurodiversos, a forma de demonstrar amor e construir intimidade pode ter  características diferentes.  

Uma pessoa autista pode ter dificuldade para interpretar mensagens implícitas,  ironias ou sinais não verbais ou uma pessoa com TDAH pode enfrentar desafios  relacionados à impulsividade, à distração ou ao esquecimento de compromissos  importantes. Em ambos os casos, a dificuldade nem sempre está na falta de  amor ou interesse, mas na forma como a comunicação acontece. 

Muitas vezes, aquilo que interpretamos como desatenção, frieza ou desinteresse  pode ser apenas uma maneira diferente de processar emoções e demonstrar  afeto. Da mesma forma, muitas pessoas neurodivergentes relatam sentir-se  constantemente incompreendidas por não corresponderem aos modelos  tradicionais de expressão emocional. 

Ao mesmo tempo, os relacionamentos neurodiversos também revelam  potencialidades que raramente ganham visibilidade: vínculos construídos sobre  bases sólidas de autenticidade, confiança, respeito às necessidades individuais,  valorização das singularidades, espaço para a comunicação clara, para o  diálogo, para a previsibilidade e para o reconhecimento das singularidades de  cada parceiro. 

Quando existe compreensão mútua, diferenças podem deixar de ser obstáculos  e se transformar em oportunidades de crescimento para ambos os parceiros. Mas como construir essa compreensão? Na minha prática como psicopedagoga,  acompanhando crianças, adolescentes, famílias e educadores, aprendi que  grande parte das habilidades que sustentam relacionamentos saudáveis começa  a ser construída muito antes da vida adulta.  

Habilidades sociais nascem nas brincadeiras compartilhadas, na maneira como  lidamos nos conflitos entre irmãos, nas amizades da escola, nas conversas à  mesa com a família e nas oportunidades que as crianças têm de aprender a  reconhecer sentimentos, respeitar limites, lidar com frustrações e considerar  diferentes perspectivas. 

Por isso, quando observamos os desafios presentes em muitos relacionamentos,  é importante lembrar que estamos falando de habilidades humanas que podem  ser desenvolvidas ao longo da vida. Os estudos de Zilda e Almir Del Prette  destacam que habilidades sociais como empatia, assertividade, escuta,  resolução de conflitos e expressão adequada de sentimentos são aprendidas e  podem ser fortalecidas por meio das experiências de convivência. 

Estudos e programas de ensino de habilidades sociais para pessoas autistas,  como os desenvolvidos pela Doutora em Educação Especial, Camila Graciela  Santos Gomes, mostram que muitas competências relacionadas à comunicação  e à interação social podem ser ensinadas, respeitando as características 

individuais de cada pessoa. Não se trata de ensinar alguém a deixar de ser quem  é, mas de ampliar repertórios para que possa construir relações mais saudáveis  e significativas. 

Da mesma forma, as funções executivas, conjunto de habilidades cognitivas  responsáveis pelo planejamento, controle inibitório, flexibilidade cognitiva,  monitoramento do comportamento e autorregulação emocional, exercem papel  fundamental na vida afetiva. Escutar sem interromper, controlar impulsos durante  um conflito, negociar interesses diferentes, reconhecer erros e buscar soluções  compartilhadas são exemplos de comportamentos que dependem diretamente  dessas competências. 

Talvez o maior desafio dos relacionamentos não seja encontrar alguém  exatamente igual a nós, mas desenvolver a capacidade de compreender,  respeitar e dialogar com quem é diferente. Nesse sentido, as habilidades sociais,  socioemocionais e as funções executivas se tornam ferramentas essenciais para  a construção de relações mais saudáveis, respeitosas e humanas. 

Essa reflexão nos leva a uma questão fundamental: onde essas habilidades  começam a ser construídas? É durante os primeiros anos de vida que  aprendemos, pouco a pouco, a esperar a nossa vez, lidar com frustrações,  expressar sentimentos, resolver conflitos, negociar interesses, desenvolver  empatia e compreender que o outro pode pensar, sentir e agir de maneira  diferente da nossa. 

Por isso, é fundamental que famílias, educadores e profissionais da infância  compreendam a importância de ensinar habilidades sociais, habilidades  socioemocionais e funções executivas desde cedo. Não estamos preparando  crianças apenas para o sucesso acadêmico, mas estamos preparando futuros  adultos que construirão amizades, relacionamentos amorosos, famílias e  comunidades. 

Como afirmou a escritora Lya Luft, “a infância é o chão que a gente pisa a vida  inteira”. Talvez por isso as experiências de convivência, afeto, respeito, diálogo  e pertencimento vividas nos primeiros anos tenham um impacto tão profundo na  forma como aprendemos a amar, a cuidar e a nos conectar ao longo de toda a  vida. 

Neste Dia dos Namorados, talvez se faça necessário lembrar que existem  diferentes formas de demonstrar afeto, comunicar necessidades, construir  vínculos e que talvez uma das maiores lições da neurodiversidade seja  justamente esta: relacionamentos saudáveis não são aqueles em que duas  pessoas funcionam da mesma maneira, mas aqueles em que ambas aprendem,  todos os dias, a construir pontes entre suas diferenças.

Carla Costa é pedagoga, psicopedagoga, orientadora educacional e orientadora parental, com mais de 10 anos de experiência no desenvolvimento infantil, aprendizagem e educação inclusiva. Graduada pela UFBA, com MBA em Gestão Escolar pela USP e especializações em psicopedagogia, alfabetização e inclusão, atua no apoio a famílias, escolas e profissionais da educação. 

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