Pessoas com deficiência precisam atravessar São Paulo para desbloquear cartão de transporte TOP Especial

Pessoas com deficiência precisam atravessar São Paulo para desbloquear cartão de transporte TOP Especial

Biometria facial bloqueou 22,9 mil cartões desde maio; atualmente, validação presencial é feita em um único posto, em Itapecerica da Serra

O que deveria ser uma ferramenta de segurança para garantir o uso correto de um benefício de transporte está se transformando, para algumas pessoas com deficiência e suas famílias, em mais uma barreira de acesso.

O cartão TOP Especial, que devereia garantir gratuidade no transporte intermunicipal, estão sendo obrigados a percorrer grandes distâncias até Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, quando precisam desbloquear o cartão.

Atualmente, a validação presencial de identidade é realizada em um único posto.

Apenas como um exemplo. As famílias que residem em Pirituba precisam percorrer 44km para tentar desbloquear o cartão.

Se utililizar o transporte aéreo são quase 3 horas de locomoção.

O problema ganhou força após a implantação do sistema de reconhecimento facial, em maio de 2026.

Segundo a operadora Autopass, desde a implantação da biometria facial, aproximadamente 1,3 milhão de transações foram avaliadas.

Desse total, 71.530 foram consideradas não conformes e 22.900 cartões foram bloqueados.

Uma viagem para conseguir voltar a usar o próprio benefício

Para quem mora em regiões distantes de Itapecerica da Serra, o desbloqueio pode significar horas de deslocamento, gastos e até perda de um dia de trabalho.

Matéria publicado no Metropoles, pelo jornalista William Cardoso, relata o caso de uma família de Guarulhos que levou o filho autista, de seis anos, até o posto de atendimento. Segundo os familiares, foram gastos R$ 400 em transporte por aplicativo. O cartão era necessário para levar o menino a consultas médicas três vezes por semana.

Outra usuária, também moradora de Guarulhos, saiu de casa às 5h40 e levou mais de cinco horas para chegar a Itapecerica da Serra utilizando transporte público. Como o cartão estava bloqueado, a viagem precisou ser paga sem a gratuidade.

Há ainda o relato de uma mãe de Mairiporã que utilizou o cartão para buscar medicamentos para o filho autista e, posteriormente, teve o benefício bloqueado. Ela afirma que perguntou sobre a possibilidade de realizar o procedimento em outro local, mas recebeu a informação de que deveria comparecer a Itapecerica.

Por que os cartões estão sendo bloqueados?

De acordo com a empresa que gerencia a emissão do cartão, o reconhecimento facial foi implantado como mecanismo de segurança para verificar se o benefício está sendo utilizado pelo titular.

A Autopass afirma que a tecnologia tem como objetivo garantir a correta identificação do beneficiário e evitar o uso indevido da gratuidade.

Mas passageiros ouvidos pelo Metrópoles relatam situações em que o bloqueio teria ocorrido por dificuldades no reconhecimento, inclusive quando o acompanhante se aproxima da câmera antes do titular, além de casos em que os usuários afirmam não saber por que o cartão foi bloqueado.

Uma única opção de atendimento

Para quem teve o cartão bloqueado, precisa comparecer ao posto da Avenida Dona Anila, em Itapecerica da Serra, para realizar a validação presencial quando o sistema exige uma verificação adicional.

A situação levou uma usuária a procurar a Agência Reguladora de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp). De acordo com o relato publicado pelo Metrópoles, a agência informou que a definição dos postos de atendimento é responsabilidade da operadora e afirmou que reforçaria a necessidade de ampliação da rede e de uma alternativa para reduzir o impacto dos deslocamentos.

Autopass diz que solução online está pronta

Em resposta ao Metropole, a Autopass informou que trabalha para ampliar as alternativas de atendimento, incluindo novos pontos presenciais e um formato de atendimento online para validação de identidade.

Segundo a empresa, a solução online já está tecnicamente pronta, mas sua implementação depende da aprovação das instâncias competentes.

A empresa também afirma manter canais digitais para esclarecimento de dúvidas, consulta de informações e serviços relacionados ao TOP Especial.

A Secretaria de Parcerias em Investimentos do Estado de São Paulo e a Artesp afirmaram que participam da governança integrada da bilhetagem metropolitana e que continuarão acompanhando o tema e as medidas de aprimoramento.

A Artesp informou ainda que está dialogando com a Autopass sobre a ampliação dos pontos e canais de atendimento e questões de acessibilidade.

Tecnologia não pode criar uma nova barreira

O episódio levanta uma discussão que ultrapassa o funcionamento de um cartão de transporte.

A tecnologia pode ser uma importante ferramenta para combater fraudes e garantir que benefícios públicos sejam utilizados corretamente.

Mas, quando o usuário é uma pessoa com deficiência, acessibilidade precisa fazer parte do desenho da solução desde o início. Não basta criar um sistema capaz de identificar o titular.

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