Quando eu me casei, meu irmão também veio

Quando eu me casei, meu irmão também veio - OPINIÃO - * Por Igor Lima

OPINIÃO

  • * Por Igor Lima

O que ninguém conta sobre construir uma vida a dois quando o futuro de um irmão com deficiência já faz parte da história.

Era uma noite comum. Jantar em casa, conversa sobre o fim de semana, planos para as próximas férias. Em algum momento, ele mencionou a possibilidade de se mudarem para outra cidade, uma oportunidade de trabalho que havia surgido e que parecia promissora. Ela ouviu com atenção. Fez perguntas. Mas, em algum ponto da conversa, ficou em silêncio por um momento que durou um segundo a mais do que o normal. Ele percebeu. Não disse nada. Os dois continuaram jantando. A oportunidade nunca mais foi mencionada.

Semanas depois, ela tentou explicar o que havia acontecido naquele silêncio. Disse que, no momento em que ele falou em mudar de cidade, a primeira coisa que veio à cabeça não foi a oportunidade em si. Foi o irmão. Foi a distância. Foi a pergunta que não havia conseguido formular em voz alta: e se alguma coisa acontecer com os meus pais? Quem vai estar perto o suficiente para ajudar?

Ele a ouviu. Disse que entendia. E entendia mesmo. Mas nenhum dos dois sabia muito bem o que fazer com aquilo.

O que ninguém conta antes de se apaixonar

Quando duas pessoas constroem uma relação, trazem consigo histórias, famílias e responsabilidades. Mas existe uma responsabilidade específica que muitos parceiros de irmãos de pessoas com deficiência descrevem como algo para o qual não estavam completamente preparados, não porque ninguém os tenha avisado, mas porque a dimensão real daquilo só se revela com o tempo.

No início da relação, o irmão com deficiência é parte da história do parceiro, alguém que aparece nos almoços de família e integra aquele universo de forma afetiva e presente. O que nem sempre fica claro é que, junto com esse irmão, existe uma preocupação sobre o futuro que não some quando o casal fecha a porta de casa. Na hora de escolher o primeiro apartamento, um homem insistiu num imóvel com um quarto a mais do que precisavam.

Quando a esposa perguntou o motivo, ele ficou em silêncio por um momento. Depois disse: “Para o meu irmão. Se um dia precisar.” Ela ficou olhando para ele. Não pelo conteúdo da resposta, mas pela naturalidade com que foi dita. Como se fosse óbvio. Como se aquele quarto extra já fizesse parte do plano há muito tempo, mesmo que nunca tivesse sido discutido entre os dois.

Quando o futuro do outro vira o futuro do casal

Há um momento em muitas relações em que a preocupação individual de um dos parceiros deixa de ser apenas dele e passa a ser do casal, de forma silenciosa, quando as decisões simplesmente começam a ser moldadas por uma variável que nunca foi formalmente nomeada. A escolha de onde morar, a decisão de ter filhos, o tamanho do apartamento, a distância da família de origem, quanto se poupa e para quê. Todas essas decisões podem ser influenciadas por uma preocupação sobre o futuro do irmão com deficiência que nunca chegou a ser discutida diretamente.

Olhando para trás, um homem percebeu que praticamente todas as grandes decisões que ele e a esposa haviam tomado nos últimos dez anos haviam sido moldadas por essa presença silenciosa. “Eu nunca disse: olha, eu tenho essa preocupação e ela vai afetar a nossa vida. Eu simplesmente fui ajustando as coisas. E ela foi aceitando sem saber bem por quê.”

O parceiro que também não foi perguntado

Uma mulher chegou a um ponto em que sentia que qualquer plano que ela e o marido faziam passava por um filtro que ela não controlava. “Não é que ele me imponha nada. Ele é um homem generoso e atencioso. Mas eu sinto que existe sempre uma pergunta por baixo de tudo: isso vai funcionar se eu precisar estar perto do meu irmão? E eu nunca sei quando essa pergunta está sendo feita.”

Não se trata de egoísmo. Trata-se de algo muito mais humano: a sensação de que existe um terceiro elemento na relação, silencioso mas presente, que ocupa espaço nas decisões e nos planos do casal sem que esse espaço tenha sido negociado de forma aberta.

O amor que não dispensa clareza

O amor é suficiente para muitas coisas. Mas não é suficiente para substituir a clareza que dois parceiros precisam ter sobre um tema que afeta a vida de ambos. Um casal havia chegado a esse ponto depois de anos de pequenas tensões não resolvidas. O que havia desbloqueado tudo foi uma frase simples dita num momento de cansaço: “Eu quero estar do seu lado nisso. Mas eu preciso saber o que é isso.” Ele havia ficado em silêncio. E então começou a falar de uma forma que nunca havia falado antes. Sobre o irmão, sobre o futuro, sobre os medos que carregava. “Foi a primeira vez que eu senti que estávamos realmente juntos nisso”, ela disse.

O quarto extra no apartamento pode ser uma escolha bonita e generosa. Mas é ainda mais bonito quando os dois parceiros sabem por que ele está ali, conversaram sobre isso e decidiram juntos que queriam que ele existisse.

  • * Igor Lima é advogado (OAB/RJ), especialista em Direitos Humanos e sustentabilidade, e pessoa com deficiência. Coordenador da coletânea jurídica “Deficiência e os Desafios para uma Sociedade Inclusiva”, citada no STJ, TST, STF e presente em instituições como Harvard e Universidade de Coimbra. Autor de artigos publicados em espaços como ABDConst, Future Law e revistas jurídicas nacionais, atua como palestrante em instituições como UERJ, UFRJ, UFF, OAB/RJ e MPRJ. Dedica-se à pesquisa e defesa dos direitos das pessoas com deficiência, com experiência em inclusão, políticas públicas e ESG.   
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