Além de transformar a vida de crianças com fissura labiopalatina, experiência voluntária fortalece a saúde emocional, amplia o propósito e impulsiona a carreira de profissionais da saúde
Fazer o bem faz bem. Mais do que um sentimento comum entre voluntários, fazer o bem vem demonstrando que dedicar tempo e conhecimento ao cuidado do próximo também gera benefícios para quem pratica o voluntariado. Uma pesquisa divulgada no periódico American Journal of Preventive Medicine, constatou que pessoas que fazem este trabalho tendem a viver mais. Outros estudos apontam que pessoas que realizam trabalho voluntário apresentam melhores indicadores de saúde mental, maior sensação de propósito, redução dos níveis de estresse e fortalecimento das relações sociais.
Esse impacto é sentido diariamente pelos cerca de 200 voluntários da Operação Sorriso, uma das maiores organizações humanitárias de cirurgia do mundo. Médicos, enfermeiros, anestesistas, dentistas, psicólogos, fonoaudiólogos e diversos outros profissionais doam seu tempo para transformar a vida de crianças e famílias em diferentes regiões do Brasil. Mas, segundo eles próprios, essa transformação acontece nos dois sentidos: enquanto devolvem sorrisos, encontram também novos significados para suas próprias vidas.
Quando ajudar também fortalece quem ajuda
Para a cirurgiã plástica Mariana Sisto Alessi, especialista em cirurgia craniofacial e voluntária da Operação Sorriso desde 2015, participar das missões ampliou não apenas sua experiência profissional, mas também sua visão sobre a vida. Morando em Belo Horizonte (MG), atualmente ele atua no Hospital da Baleia.
Mariana conheceu a organização por meio do marido, também cirurgião plástico e voluntário. Pouco tempo depois, recebeu o convite para participar de sua primeira missão, em Santarém (PA). Desde então, passou a integrar programas cirúrgicos que reúnem especialistas de diversas partes do mundo em torno de um mesmo propósito, que é oferecer tratamento gratuito e de excelência para crianças com fissura labiopalatina, condição em que o lábio superior e/ou o céu da boca não se formam corretamente durante a gestação.
“A oportunidade de ser voluntária me traz uma chance de ganhar experiência profissional, trocando conhecimentos com profissionais do mundo todo. Mas o principal ganho está na minha vida pessoal. Poder ajudar o outro, aprender sobre novas culturas e compreender a realidade de populações vulneráveis traz alegria, satisfação, energia e vontade de continuar. Oferecer o que temos de melhor ao próximo me transforma como ser humano”, afirma.
Segundo Mariana, essa vivência também ultrapassa o ambiente hospitalar e passou a fazer parte da educação da filha, Isabela, que desde pequena acompanha o trabalho da mãe e aprende sobre solidariedade. “Desde bebê, eu mostro a importância do trabalho que faço e incentivo minha filha a entender por que, às vezes, preciso sair de casa para participar das missões. Quero deixar como legado a importância de ajudar o próximo e de sempre ser uma pessoa disposta a doar um pouco de si”, complementa.
Além do impacto pessoal, a médica destaca que o contato com equipes multidisciplinares e especialistas internacionais trouxe aprendizados que passaram a fazer parte da sua rotina profissional no atendimento a pacientes com deformidades craniofaciais. “A proximidade e a interação com outras especialidades são muito importantes, e a gente vivencia isso na rotina da Operação Sorriso. Também temos essa capacidade de trazer esse lado lúdico, essa ideia de transformar o momento da cirurgia em uma experiência de alegria, ausência de medo e conforto para o paciente. Queremos proporcionar acolhimento a essas famílias que entregam para nós a peça mais importante que têm, que é o seu filho, para que possamos cuidar dele. Poder oferecer a esses pacientes e a esses pais um acolhimento que torne esse momento muito mais suave faz toda a diferença”, ressalta a médica.
“Eu não fui salvar crianças. Fui salva por elas”
É o que resume a anestesiologista pediátrica Alexandra Souza Neuba ao lembrar da primeira missão que realizou pela Operação Sorriso. A história dela talvez seja uma das que melhor traduzem a relação entre voluntariado e saúde mental. Há cerca de 15 anos, ela vivia um período de profunda sobrecarga emocional. Recém-divorciada, com filhos pequenos, enfrentando dificuldades pessoais e um sentimento de desvalorização profissional, não imaginava que um convite para participar de uma missão da Operação Sorriso mudaria completamente o rumo da sua vida.
Filha de um pedreiro e funcionário de fábrica e de uma mãe que estudou apenas até a quarta série do ensino fundamental, Alexandra conta que cresceu aprendendo a aproveitar todas as oportunidades que surgiam. A primeira missão aconteceu em Fortaleza, em 2011. Ao chegar e encontrar centenas de famílias aguardando atendimento, ela descobriu um novo propósito. “Quando vi aquelas pessoas buscando apenas o direito a uma cirurgia segura, percebi o que eu podia oferecer. Minha vida ganhou propósito, ganhou luz, ganhou direção”, diz.
Hoje, Alexandra afirma que o voluntariado foi determinante para sua reconstrução emocional. “Eu me curo todas as vezes que consigo atender uma criança e dar um desfecho adequado para aquela história. Fazer o bem é muito mais benéfico para quem faz do que, eventualmente, para quem recebe”.
O impacto foi tão profundo que ultrapassou sua vida profissional. Hoje, seus filhos também são voluntários da organização. “Quanto mais meus filhos dividem a mãe com o mundo, mais mãe inteira eles têm em casa. Não consigo imaginar como seria minha vida se não tivesse aceitado aquele convite”, comenta.
Em quase 15 anos de atuação voluntária, Alexandra participou de cerca de 58 missões da Operação Sorriso no Brasil e no exterior. A experiência permitiu conhecer profissionais e pacientes de diferentes culturas e realidades. “Poucos colegas têm essa oportunidade de conhecer tanta gente maravilhosa e ter contato com crianças do mundo inteiro, na África, nas Filipinas, no Marrocos, na América Central, na América Latina e em todo o Brasil”, complementa.
Além da atuação nas missões, a experiência adquirida impulsionou sua carreira acadêmica. Alexandra desenvolveu pesquisas voltadas ao treinamento de anestesistas para o atendimento de crianças com fissura labiopalatina, criando um protótipo inédito para capacitação de profissionais sem colocar pacientes em risco, iniciativa atualmente em processo de patenteamento.
Aprendizado técnico e propósito caminham juntos
Já para o cirurgião plástico Dr. Álvaro Fagotti Filho, voluntário da Operação Sorriso desde 2006, a experiência nas missões representa uma combinação única entre aperfeiçoamento profissional e crescimento humano.
Quando se formou em cirurgia plástica, nos anos 2000, ele participou da primeira missão internacional na Nicarágua, poucos dias após concluir a residência médica. O ambiente de colaboração entre especialistas de diferentes países marcou o início de uma trajetória que já soma quase duas décadas de atuação voluntária.
“Na Nicarágua fiquei impressionado com o time, que reunia anestesistas do Canadá e cirurgiões de Nova Iorque (EUA), do Peru e do México. Em determinado momento, um professor de cirurgia do México perguntou se eu gostaria de operar o próximo paciente. Fiz toda a cirurgia e voltei para casa muito mais confiante, com a sensação de que tinha feito a escolha certa ao dedicar tanto tempo ao aprendizado”, lembra.
Ao longo dos anos, a participação em programas cirúrgicos permitiu que o médico se tornasse uma referência no tratamento de fissuras labiopalatinas no Norte do Paraná. Hoje, o Centro de Apoio e Reabilitação de Portadores de Fissura Lábio Palatal (CEFIL) atende pacientes de cerca de 90 municípios da região, resultado de um conhecimento que, segundo ele, foi adquirido também nas missões da Operação Sorriso.
“Quando um jovem cirurgião participa de programas com profissionais experientes, realizando vários casos complexos em poucos dias, o aprendizado é enorme. São verdadeiras imersões no tratamento da fissura labiopalatina”, explica.
Com o passar do tempo, ele deixou de ser apenas aprendiz para assumir também o papel de educador dentro da organização, auxiliando na formação de novos cirurgiões. “Ser reconhecido pelos próprios colegas como alguém capaz de orientar casos complexos mostra que houve uma evolução profissional construída ao longo dos anos”, afirma Álvaro.
Para além da medicina, é a dimensão humana que mais o motiva a continuar participando das missões. “Diante de tanta desigualdade social e de famílias que enfrentam tantas dificuldades, a gente reflete sobre tudo o que recebeu na vida. Sempre penso que, diante de tudo o que Deus me deu, nada mais justo do que doar um pouco para essas pessoas”. Mais informações, acesse www.operacaosorriso.org.br.
Sobre a Operação Sorriso
Presente no Brasil desde 1997, a Operação Sorriso é uma das maiores organizações sem fins lucrativas médicas voluntárias do mundo, dedicada ao tratamento de pessoas nascidas com deformidades craniofaciais, especialmente fissuras labiopalatinas. O primeiro programa cirúrgico da instituição no país foi realizado em Fortaleza (CE) e, desde então, a organização já promoveu 96 programas cirúrgicos em 17 cidades de 13 estados brasileiros. Ao longo dessa trajetória, foram atendidas 13.045 famílias, realizadas 118.153 consultas médicas gratuitas e 8.413 procedimentos cirúrgicos, que beneficiaram diretamente 6.237 pacientes. Atualmente, a Operação Sorriso mantém programas e atendimentos nas regiões de Natal (RN), Porto Velho (RO) e Santarém (PA).






