OPINIÃO
- * Por Leomar Antonio das Neves
A ética é o campo que estuda o que é certo e errado nas relações humanas, orientando a convivência em sociedade. Dentro dessa perspectiva, um dos temas mais importantes da atualidade é a inclusão de pessoas com deficiência, pois ela envolve diretamente questões de justiça, dignidade e respeito ao próximo.
Embora a discussão contemporânea sobre inclusão esteja ligada a noção de direitos humanos e políticas sociais modernas, já é possível encontrar, na Bíblia, fundamentos éticos que dialogam com esse tema. Um exemplo disso é Levítico 19:14, que apresenta princípios de proteção aos vulneráveis e respeito à dignidade humana das pessoas com deficiência no antigo testamento.
Levítico 19:14 e seu princípio ético
Levítico 19:14 faz parte da Lei de Moisés e estabelece orientações sobre como o povo deveria se comportar em relação ao próximo. O texto proíbe duas atitudes principais: amaldiçoar o surdo e colocar tropeço diante do cego.
A ideia central do versículo não se limita apenas às situações específicas citadas, mas expressa um princípio ético mais amplo: não explorar a vulnerabilidade do outro nem causar dano a quem se encontra em desvantagem.
Nesse sentido, Deus aparece como fundamento moral da justiça, exigindo que seu povo viva de maneira responsável, justa e respeitosa. O foco do texto é, portanto, uma ética da proteção ao vulnerável.
Do princípio bíblico à ética contemporânea
Com o desenvolvimento histórico das sociedades, especialmente a partir da consolidação dos direitos humanos, surgiu a necessidade de garantir igualdade de condições e proteção legal às pessoas em situação de vulnerabilidade, incluindo pessoas com deficiência.
A ideia moderna de inclusão nasce justamente dessa evolução, buscando eliminar barreiras físicas, sociais e institucionais que dificultam a participação plena dessas pessoas na sociedade.
Dessa forma, o princípio presente em Levítico 19:14 pode ser compreendido como uma base ética atemporal que se conecta ao conceito moderno de inclusão.
Bullying e exclusão como violação ética
Na realidade contemporânea, práticas como bullying, exclusão escolar e discriminação no ambiente de trabalho representam formas claras de violação dos princípios éticos discutidos em Levítico 19:14.
O bullying contra pessoas com deficiência envolve zombarias, humilhações e isolamento social, afetando diretamente sua dignidade. A exclusão escolar ocorre quando o aluno não recebe condições adequadas de aprendizagem ou é impedido de participar plenamente das atividades. Já a discriminação no trabalho se manifesta na recusa de oportunidades ou na desvalorização profissional.
Todos esses fenômenos podem ser compreendidos como formas modernas de “colocar tropeço diante do cego”, ou seja, criar obstáculos adicionais para pessoas que já enfrentam desafios em sua vida cotidiana.
Inclusão como expressão ética do amor ao próximo
Outro princípio importante presente na tradição bíblica é o mandamento de amar o próximo como a si mesmo, descrito em Levítico 19:18. Esse princípio amplia a ética da simples não agressão para uma ética ativa de cuidado, empatia e responsabilidade pelo outro.
Nesse sentido, a inclusão de pessoas com deficiência pode ser entendida como uma expressão concreta desse amor ao próximo. Incluir não significa apenas evitar prejuízos, mas promover condições reais para participação, respeito e valorização da diversidade humana.
Assim, a ética do cuidado e da empatia se transforma em prática social, contribuindo para uma sociedade mais justa e acessível.
Levítico 19:14 continua relevante como base ética, pois expressa um princípio fundamental de respeito à dignidade humana e proteção dos vulneráveis. A inclusão moderna, por sua vez, pode ser vista como uma aplicação prática desses princípios no contexto atual.
Dessa forma, o combate ao bullying, à exclusão e à discriminação contra pessoas com deficiência não é apenas uma questão social ou legal, mas também uma questão ética profunda. Em última análise, a dignidade humana permanece como o centro dessa reflexão.
- * Leomar Antonio das Neves é bacharel em direito pela Unimater, Mestre em Desenvolvimento Regional pela UTFPR, pós graduado em direito civel e empresarial pela faculdade Legale e pessoa com deficiência






