Especialista alerta sobre riscos no ambiente digital e efeitos para crianças autistas

Especialista alerta sobre riscos no ambiente digital e efeitos para crianças autistas

Pesquisa publicada na revista ‘Nature Human Behaviour’ acompanhou mais de 5 mil estudantes e identificou um pior desempenho escolar entre jovens que começaram a usar redes sociais mais cedo; a psicopedagoga e educadora parental Carla Costa explica sinais de alerta e como estabelecer limites

O uso precoce das redes sociais por crianças e adolescentes tem preocupado as famílias e escolas, acerca dos impactos da exposição às telas. Segundo um estudo publicado na revista científica “Nature Human Behaviour”, que acompanhou 5,2 mil estudantes ao longo da trajetória escolar, foi identificada uma associação entre o início prematuro nas redes sociais e um pior desempenho acadêmico.

Essa dinâmica acompanha todo o processo escolar. De acordo com o levantamento, aproximadamente 11% dos estudantes criam o primeiro perfil ainda no ensino fundamental I; 29% começam no 6º ano; 25% no 7º ano e 18% no 8º ano. Apenas 16% esperaram até o 9º ano ou depois. A pesquisa aponta ainda que os impactos foram mais fortes entre aqueles que iniciaram o uso entre o sexto ou sétimo ano e permaneceram ao longo da vida escolar, com a presença constante do smartphone durante os estudos. 

Para a psicopedagoga e educadora parental Carla Costa, os resultados reforçam a importância de observar não apenas quanto tempo a “garotada” passa diante das telas, mas também o espaço que esse dispositivo ocupa na rotina e as experiências que acabam sendo substituídas por elas. Diante das polêmicas recentes envolvendo crianças e adolescentes no Discord, à atenção ao uso de ‘telas’ e de mecanismos de interação virtual deve ser redobrada. 

“Em crianças autistas, por exemplo, ecolalias e scripts, a repetição de palavras, frases ou trechos anteriormente ouvidos, podem fazer parte das características da linguagem e podem inclusive cumprir funções comunicativas. Às vezes a criança quer falar o tempo inteiro sobre aquele vídeo ou personagem, introduz falas em momentos que não têm relação com a situação, encontra dificuldade para perceber que o colega não conhece aquele conteúdo ou não está interessado nele e tem pouca flexibilidade para mudar o assunto, causando muita irritação à criança”, diz.

“Quando praticamente todo o repertório disponível para aquela criança vem das telas, e ela passa muitas horas consumindo os mesmos vídeos, personagens e jogos e tem poucas oportunidades de brincar com outras crianças, conversar com adultos, vivenciar situações diferentes e experimentar a linguagem em contextos reais, nós estamos diminuindo as possibilidades de ampliação desse repertório. Em virtude dos casos envolvendo o uso do Discord, fica cada vez mais necessário que os pais entendam também um outro lado do excesso de telas: o perigo que espreita as relações digitais nas conversas, nos atos e na engenharia social”, explica.

Segundo Carla, a exposição “em excesso” pode gerar mudanças no comportamento que merecem atenção dos adultos, como irritabilidade, dificuldade de concentração, resistência a atividades sem dispositivos e redução do interesse por brincadeiras e interações presenciais. Em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o acompanhamento dessa relação exige ainda mais cuidado, já que o uso das telas pode assumir características diferentes com alguns comportamentos observados após longos períodos de exposição.

Outro ponto de atenção é o sono, já que o uso de dispositivos próximo ao horário de dormir pode ocupar um momento que é destinado ao descanso e contribui para uma rotina menos organizada. Para Carla, estabelecer limites não necessariamente significa retirar a tecnologia, mas criar regras nítidas para que as telas não ocupem espaços fundamentais da infância e da adolescência.

Nesse processo, Carla orienta que a participação dos adultos é fundamental. Estabelecer períodos sem dispositivos, principalmente durante as refeições, estudos e estímulo a atividades físicas, leitura, brincadeiras, convivência familiar e interação com outras crianças. Para crianças com TEA, essas estratégias também precisam considerar as particularidades individuais, os interesses, as formas de comunicação e as necessidades de cada criança. 

“Talvez a melhor estratégia para lidar com as telas não seja apenas determinar a quantidade de horas que a criança ou adolescente deve ficar diante da tela, mas uma avaliação do que a tela tem ocupado. Tem atrapalhado o sono? As refeições? A brincadeira? O movimento? A conversa? O tempo em família? O estudo? Os limites de tempo continuam sendo importantes. Mas precisamos ir além da contagem das horas, porque precisamos de uma rotina. Precisa saber que existe hora para acordar, estudar, tomar banho, se alimentar e também usar a tecnologia. Quando tudo é negociado diariamente, a família entra em um processo desgastante de discussão permanente”, comenta a especialista.

Com mais de uma década de experiência, a psicopedagoga e educadora parental explica que o desafio não é tratar a tecnologia como inimiga, mas garantir que ela não substitua experiências essenciais para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social. 

“A tecnologia faz parte do mundo das crianças e dos adolescentes dessa geração e pode ser uma excelente ferramenta de aprendizagem, comunicação, acessibilidade e lazer quando utilizada com intencionalidade. Nosso desafio é ensinar a criança a viver em um mundo cheio de tecnologia sem precisar estar conectada o tempo inteiro”, conclui. 

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