OPINIÃO
- * Por Igor Lima
A festa, a infância e o que a escola revela sobre a sociedade
As festas juninas nas escolas ocupam um lugar especial na memória coletiva. São cores, músicas, danças, ensaios e uma forma muito própria de organização da infância em coletivo. Mas, para além da tradição cultural, esses momentos também revelam algo mais profundo sobre a forma como a escola lida com a diversidade de seus estudantes.
Quando a festa é inclusiva, ela deixa de ser apenas celebração e passa a ser também uma forma concreta de afirmar direitos. Direitos que, muitas vezes, não aparecem no discurso, mas se materializam na prática cotidiana da convivência.
O palco escolar e a presença das crianças com deficiência
Em uma apresentação de São João, a presença de crianças com deficiência não deveria ser vista como exceção ou adaptação extraordinária, mas como parte natural da vida escolar. Elas estão ali como todas as outras crianças: participando, ensaiando, aprendendo, ocupando o espaço que lhes pertence.
Ainda assim, o modo como essa participação acontece revela muito sobre o nível de maturidade da inclusão em determinada instituição. Quando há acolhimento real, a criança participa sem precisar ser colocada à margem. Quando há fragilidade, a participação depende de improvisos, adaptações pontuais ou iniciativas isoladas. Essa diferença, embora pareça sutil, tem impacto direto na experiência de pertencimento.
As mães atípicas e o que o silêncio também comunica
Existe uma dimensão dessas festas que não está no palco. Está nas laterais, no olhar das mães, pais e famílias. É um olhar que não precisa de palavras para ser compreendido. Ele carrega rotina, cuidado contínuo, preocupações que não aparecem na programação da festa e uma expectativa que vai muito além da apresentação em si.
Quando a música começa, esse olhar muda de forma. Não porque a realidade desaparece, mas porque por alguns instantes ela encontra uma espécie de reconhecimento público. E isso tem um peso simbólico importante. Porque não se trata apenas de ver o filho participar. Trata-se de perceber que ele está sendo incluído sem ser reduzido a uma condição.
O pequeno gesto que ninguém esquece
Há momentos que não aparecem em nenhuma fotografia oficial da festa. Não estão no painel montado pela escola, nem no vídeo que circula nos grupos de família. Mas estão guardados com muito mais cuidado.
Um menino autista que, por meses, recuou ao toque. Que precisou de tempo, de previsibilidade, de um ambiente que não o sobrecarregasse. E que, no meio de uma quadrilha ensaiada com paciência, deixou um colega pousar a mão no seu ombro.
Não houve aplausos para esse momento. Talvez ninguém além da mãe e da professora tenham percebido. Mas o que aconteceu ali foi imenso. Porque aquele abraço, ou aquele meio abraço, aquele gesto contido, não foi apenas afeto. Foi confiança construída ao longo do tempo. Foi um ambiente que tornou possível o que antes parecia impossível. E foi também o resultado de uma escolha pedagógica: a de não desistir, de insistir com cuidado, de entender que inclusão tem ritmo próprio para cada criança.
O pequeno gesto importa porque é o resultado de um processo maior. E porque revela que a escola funcionou.
A infância e o aprendizado que acontece sem manual
As crianças não nascem com preconceitos estruturados. Elas aprendem a forma de se relacionar com o outro a partir do ambiente em que vivem. Por isso, a escola tem um papel decisivo.
A criança que cresce ao lado de um colega com deficiência desde os primeiros anos escolares não precisa aprender, mais tarde, que a diferença é normal. Ela simplesmente já sabe, porque viveu isso antes de ter palavras para descrever. Esse aprendizado silencioso, que acontece no ensaio, na fila do lanche, na roda da quadrilha, é uma das contribuições mais duradouras que a escola inclusiva pode oferecer a uma geração inteira. Não apenas às crianças com deficiência. A todas.
Quando crianças diferentes dançam juntas, esperam umas pelas outras, ajustam ritmos e compartilham o mesmo espaço, algo importante acontece de forma silenciosa. Elas aprendem convivência antes de aprender exclusão. E isso não está escrito em nenhum currículo formal, mas está profundamente ligado ao sentido da educação inclusiva.
O professor que não está no palco, mas é parte do espetáculo
Por trás de cada festa inclusiva bem-feita, existe trabalho invisível. Existe o professor que chegou mais cedo para adaptar a coreografia sem retirar a criança do grupo. A professora de apoio que ensaiou separadamente, com calma e com humor, até que o movimento fizesse sentido. O coordenador que conversou com os colegas de turma antes dos ensaios e explicou, com palavras simples, que cada um tem um jeito de aprender e de dançar.
Esses profissionais raramente aparecem nos discursos de encerramento da festa. Mas são eles que tornam possível o que o palco depois exibe. A inclusão não acontece por acaso. Ela acontece porque alguém planejou, ajustou, insistiu e acreditou que valia a pena. E porque a escola, em seus melhores momentos, entende que seu papel não é apenas transmitir conteúdo. É também ensinar que o outro existe, tem valor e merece espaço.
A escola como espaço de direito e não apenas de organização
A realização de festas inclusivas não pode ser tratada apenas como um evento pedagógico ou recreativo. Ela também reflete a forma como o direito à educação é compreendido na prática.
O direito à educação inclusiva não se limita ao acesso à matrícula ou à presença física do estudante na escola. Ele envolve participação plena em todas as dimensões da vida escolar, inclusive nas atividades culturais, simbólicas e coletivas. Quando isso não ocorre de forma estruturada, a inclusão passa a depender de esforços individuais, boa vontade ou adaptações pontuais. E isso fragiliza a ideia de igualdade material que deve orientar a educação pública e privada.
Entre a festa e a realidade: o que ainda precisa ser enfrentado
Em muitas instituições, ainda é possível perceber que a inclusão em eventos escolares acontece de forma desigual. Há escolas que estruturam a participação de forma planejada, com acessibilidade e suporte adequado. Mas também há contextos em que a participação depende de improviso, adaptação tardia ou esforço das próprias famílias.
Essa diferença não é apenas organizacional. É também uma diferença de garantia de direitos. Porque quando a participação não é plenamente assegurada, a mensagem transmitida pode ser a de que a presença da criança com deficiência ainda é algo condicionado.
O que a festa revela sobre o direito de pertencer
A festa junina, quando observada com atenção, vai além da celebração. Ela revela como a escola compreende a diversidade dos seus estudantes e, mais do que isso, como o direito à educação é efetivado no cotidiano.
Uma roda de dança, por mais simples que pareça, também é uma forma de dizer quem está dentro e quem corre o risco de ficar à margem. Quando a inclusão é real, ninguém precisa justificar sua presença. Quando ela é frágil, a presença ainda precisa ser explicada.
A festa termina, as bandeirinhas são retiradas, o som se apaga. Mas o menino que deixou um colega pousar a mão no seu ombro não esquece. E o colega também não. Porque há aprendizados que não cabem em nenhuma grade curricular. Só cabem na experiência de ter estado, de verdade, dentro da roda.
Uma palavra do autor
Escrever sobre inclusão, para mim, nunca foi um exercício apenas intelectual.
Foi sempre, também, um ato de memória.
Ao longo do caminho que me trouxe até aqui, com tudo que conquistei e ainda espero conquistar, há rostos que não saem da lembrança. Professores que, antes de qualquer teoria, antes de qualquer lei, fizeram algo muito mais simples e muito mais difícil: me viram. Me incluíram de verdade. Fizeram de mim parte do que a escola deveria sempre ser para todos.
Alguns desses mestres já não estão mais entre nós. Outros seguem sua missão todos os dias, muitas vezes sem o reconhecimento que merecem, enfrentando desafios que poucos enxergam e carregando responsabilidades que o sistema frequentemente não valoriza. A todos, sem exceção, o que quero dizer é o mesmo: cada gesto que tiveram, cada palavra no momento certo, cada esforço silencioso para que eu pertencesse àquele espaço, ficou. Nada disso se perdeu. Está aqui, neste texto, em cada linha que escrevo sobre o direito de estar dentro da roda.
Saibam que o que fizeram importa mais do que imaginam. Importou para mim. Transformou a minha realidade.
A vocês, meus eternos mestres, presentes ou na memória, fica o meu mais profundo reconhecimento e gratidão.
Igor Lima da Cruz Gomes

- * Igor Lima é advogado (OAB/RJ), especialista em Direitos Humanos e sustentabilidade, e pessoa com deficiência. Coordenador da coletânea jurídica “Deficiência e os Desafios para uma Sociedade Inclusiva”, citada no STJ, TST, STF e presente em instituições como Harvard e Universidade de Coimbra. Autor de artigos publicados em espaços como ABDConst, Future Law e revistas jurídicas nacionais, atua como palestrante em instituições como UERJ, UFRJ, UFF, OAB/RJ e MPRJ. Dedica-se à pesquisa e defesa dos direitos das pessoas com deficiência, com experiência em inclusão, políticas públicas e ESG.
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