FIFA prometeu inclusão. Autoridades brasileiras criticam medidas que afastam pessoas com deficiência dos estádios

FIFA prometeu inclusão, mas autoridades brasileiras criticam medidas que afastam pessoas com deficiência dos estádios

Senado Federal deve comunicar a FIFA descontentamento com os novos critérios e “que isso não se repita nos próximos mundiais”, afirmou Senador Flávio Arns

Na última Copa do Mundo, no Qatar, um ingresso para Pessoa com Deficiência custou – na fase de grupos, R$ 57 reais e a entrada do seu acompanhante era gratuita.

Em 2026 o ingresso mais barato custa R$ 325 reais, mas não está disponível na área considerada “assentos de acessibilidade”. A Pessoa com Deficiência que tentou – ou estará nos estádios, tem que pagar R$ 1.430 pelo seu ingresso no setor reservado com acessibilidade.

A FIFA também determinou que o acompanhante pague pelo ingresso, o que era gratuito até 2022. Nesse caso, se uma pessoa com deficiência estiver nos estádios terá pago R$ 2.860 reais – pelos dois ingressos. Isso significa um aumento de 4.900%.  O preço do ingresso – em comparação com 2022, foi reajustado em 38 vezes.

Outra decisão do órgão foi reduzir em um terço o número de “assentos de acessibilidade”, o que significa apenas o acesso de 18 cadeirantes em alguns jogos.

De acordo com a organização, haverá interpretação em língua de sinais em todos os 104 jogos, audiodescrição em todas as partidas, pranchas táteis (hápticas) para torcedores cegos ou com baixa visão, salas sensoriais em todos os 16 estádios e equipes treinadas para atendimento a pessoas com deficiência. Também anunciaram recursos para pessoas com autismo e outras condições relacionadas ao processamento sensorial.

Geraldo Nogueira, Diretor da Diretoria da Pessoa com Deficiência na OAB/RJ e Superintendente de Políticas Inclusivas no Estado do RJ, destacou que “a acessibilidade não pode ser tratada como um elemento decorativo de grandes eventos. Ela deve ser compreendida como um direito humano fundamental e uma condição indispensável para que as pessoas com deficiência participem plenamente da vida social, cultural e esportiva. A existência de salas sensoriais, tecnologias assistivas e estruturas adaptadas é positiva e deve ser reconhecida. Contudo, esses recursos perdem parte de seu significado quando o ingresso para área acessível possui valor significativamente superior ao ingresso comum ou quando o acompanhante deixa de ter condições facilitadas para acompanhar a pessoa com deficiência. A acessibilidade começa muito antes da entrada no estádio. A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência estabelece o compromisso de promover participação plena e efetiva na sociedade, e isso inclui o acesso ao esporte e ao lazer em igualdade de condições”.

O Senador da República Flávio Arns, em nota oficial, afirmou que “a limitação do acesso das pessoas com deficiência à Copa do Mundo é um enorme retrocesso. Estamos falando de um evento mundial que deveria ser exemplo de inclusão, acessibilidade e respeito à diversidade para todo o planeta. A Copa do Mundo deveria ser essa vitrine. O que estamos vendo neste ano é exatamente o contrário, seja pelo custo dos ingressos que estão muito mais caros em relação à última edição, seja pela cobrança dos ingressos dos acompanhantes, que eram gratuitos, ou pela redução do número de assentos de acessibilidade. Diante de todos esses fatos, estamos mobilizando os senadores para a assinatura de um documento do Senado que será enviado à Fifa, manifestando o descontentamento e pedindo que isso não se repita nos próximos mundiais“.

Roberto Paulo do Vale Tiné, presidente do CONADE – Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência afirmou que “a FIFA de hoje não tem interesse na inclusão. Sua visão de mundo é meramente comercial e enquanto tiver pessoas disponíveis a pagar uma fortuna por um ingresso e Estados que apoiam essa visão, nada mudará. Cada vez mais veremos menos disponibilidades de lugares para pessoas com deficiência, pois esse público não interessa à Fifa, que está na contramão da inclusão”.

O Deputado Federal Rodrigo Rollemberg, Presidente da Comissão dos Direitos das Pessoas com Deficiência na Câmara dos Deputados, em nota oficial, afirmou que “recebemos com indignação e profunda preocupação as notícias sobre os critérios adotados pela FIFA para a Copa do Mundo de 2026, tanto pela imposição de protocolos que podem restringir o acesso de pessoas com deficiência aos ingressos acessíveis, quanto pelos aumentos abusivos nos valores destinados a esse público. É inaceitável que pessoas com deficiência, que já enfrentam barreiras diárias de acessibilidade, sejam submetidas a novas exigências e a preços que, na prática, podem excluir grande parte desse público de um dos maiores eventos esportivos do planeta. A acessibilidade não pode ser tratada como privilégio, favor ou produto de luxo. Inclusão é direito. E direito não pode depender da capacidade financeira de cada pessoa”.

O parlamentar ainda destacou que “no próximo ano, o Brasil sediará a Copa do Mundo Feminina. Seguiremos defendendo que todos os jogos tenham protocolos adequados de acessibilidade, preços justos e condições efetivas para que as pessoas com deficiência participem em igualdade de oportunidades. Grandes eventos esportivos precisam ser espaços de inclusão, e não de exclusão”.

André Naves, Defensor Público Federal, afirmou ao Diário PcD, que “a Copa do Mundo está transformando o que deveria ser a celebração do futebol em uma vitrine de exclusão. Essa nova política de ingressos da FIFA é um absurdo. É inaceitável. Essa entidade simplesmente fechou a porta dos estádios para as pessoas com deficiência. O esporte – que deveria celebrar a união e a coletividade, foi reduzido a uma mera mercadoria, trocando a convivência humana em um lucro imediato. Não podemos aceitar arenas exclusivistas”.

Para o advogado Igor Lima, especialista em Direitos Humanos, Sustentabilidade e Inclusão, “a Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, ratificada por 190 países, e a própria Convenção Americana de Direitos Humanos estabelecem obrigações que transcendem fronteiras. O arcabouço jurídico internacional existe precisamente para isso: garantir que uma pessoa com deficiência possa buscar seus direitos e ser respeitada no Brasil, nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar do mundo. O que não pode acontecer é que eventos de dimensão global como uma Copa do Mundo sirvam para normalizar a exclusão e empurrar para a invisibilidade quem o direito internacional já reconhece como titular pleno de direitos”.

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