No Mês das Mães, história de mulher que se tornou cuidadora para compreender o autismo do próprio filho mostra como o cuidado pode transformar não só uma casa, mas a experiência da inclusão nas escolas
Ser mãe é, muitas vezes, aprender um novo jeito de ver o mundo. E, no mês dedicado a elas, a história de uma mulher que transformou dúvidas em conhecimento e ação revela como a maternidade, vivida em sua plenitude, pode ir além dos limites de uma casa e transformar caminhos ao redor.
Quando recebeu o diagnóstico de autismo não verbal do filho, ainda pequeno, Kelly Cristina Oliveira dos Santos, hoje com 49 anos, sentiu o mundo parar.
“Eu achava que nosso mundo tinha acabado. Tinha muito medo do sofrimento que ele poderia passar”, lembra.
Mas, ao invés de paralisar, ela escolheu um caminho que mudaria não só a vida do filho, mas também a de muitas outras famílias: decidiu aprender na prática. E foi além.
Kelly tornou-se cuidadora de alunos com deficiência na rede estadual de ensino. No dia a dia da escola, passou a conviver com adolescentes autistas, observar comportamentos, entender sinais e, principalmente, descobrir que inclusão não está em fórmulas prontas, mas em gestos simples.
Foi assim que o aprendizado atravessou os muros da escola e chegou em casa.
“Às vezes, o que parece birra ou chatice para muita gente é só uma forma de uma pessoa com autismo expressar desconforto. Quando a gente entende isso, tudo muda”, diz.
Mãe do pequeno Noah, de 8 anos, que além do autismo também convive com TDAH e déficit de atenção, Kelly passou a olhar para o filho com mais escuta, mais paciência, firmeza e menos medo.
E os resultados começaram a aparecer aos poucos, no tempo dele. “Eu passei a incentivar mais a autonomia e a independência dele. E comecei a ver mudanças. Em um dia, ele conseguiu levar e buscar o próprio prato de comida e, no outro, já estava falando ‘batata frita’. Pode parecer bobeira, mas pra gente não é. Eu vibrei muito quando ouvi e vi aquilo”, conta ela, ressaltando uma frase que carrega um significado imenso para quem aprende a celebrar cada pequena conquista como um grande avanço.
“Hoje, eu entendo que cada dia é uma vitória com o autismo”, pontua Kelly.
Na escola estadual onde atua, em Guarulhos, Kelly também coleciona histórias que reforçam esse aprendizado.
Um dos alunos que ela acompanha, de 16 anos, tinha dificuldade em demonstrar afeto fora do ambiente familiar e resistia à rotina escolar. Com paciência e sensibilidade, ela construiu um vínculo.
“Com jeitinho, fui ganhando a confiança dele. Hoje, ele gosta de ir à escola e já teve momentos em que beijou minha mão. A mãe dele ficou emocionada quando soube”, lembra a cuidadora.
Histórias como essa fazem com que Kelly enxergue seu trabalho como algo maior.
“Eu encaro como se fosse os olhos das outras mães dentro da escola. Cuido dos meus alunos como se fossem meus filhos.”
Cuidado e inclusão
A trajetória dela reflete um movimento que cresce silenciosamente em escolas brasileiras. Kelly faz parte da equipe da Conviva Serviços, instituição que atende de forma terceirizada mais de 10 mil alunos com deficiência em escolas públicas paulistas, por meio de contratos com o Estado e prefeituras. E que também tem um dado revelador: 97% do quadro funcional é formado por mulheres, muitas delas mães.
Para a diretora-presidente da instituição, Maíra Pizzo, esse fenômeno mostra que o impacto da inclusão vai muito além da sala de aula.
“Temos muitas cuidadoras que são mães, tias ou irmãs de pessoas com deficiência e elas trazem uma sensibilidade muito grande e que ajuda no trabalho. O cuidador é peça essencial na inclusão, pois é responsável por auxiliar os estudantes com deficiência em atividades da rotina, como alimentação, locomoção e higiene, contribuindo também para a autonomia, a comunicação e a socialização”, explica Maíra. “E isso tudo faz com que o aluno tenha acesso ao ambiente da escola regular de forma mais digna. E, muitas vezes, esse aprendizado todo até ultrapassa a escola e transforma também a dinâmica familiar, como vemos na história da Kelly e de tantas outras mães também cuidadoras”, finaliza a diretora-presidente da Conviva Serviços.
Sobre a Conviva
Com três décadas de atuação, a Conviva Serviços exerce importante papel para a educação inclusiva no Brasil. É considerada uma das principais entidades privadas a se especializar para atender aos alunos com deficiência na escola regular, através do cuidador, também chamado de Profissional de Apoio Escolar. A Conviva Serviços está presente em todo o território nacional com importantes atuações em São Paulo, Mato Grosso, Espírito Santo e outros estados. E, além do apoio escolar, oferece equipes multidisciplinares em seu quadro funcional.
CRÉDITO/IMAGEM: Arquivo Pessoal
A mãe e cuidadora Kelly Cristina Oliveira dos Santos com seu filho Noah, de 8 anos







